AS IDEIAS PROTOFASCISTAS, por Rubens Pinto Lyra

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A ideologia obscurantista dos bolsonaristas, se não considera, como os nazistas, uma determinada raça inferior, tem uma concepção que se aproxima desta.

Com efeito, o jornalista de extrema-direita Sérgio Nascimento de Camargo, indicado por Bolsonaro para a Presidência da Fundação Palmares, destinada à promoção e ao resgate da cultura negra, considera que a “que escravidão foi horrível, mas benéfica para os descendentes dos escravos” (CHEFE… 2019).

Suas opiniões justificadoras do escravismo estão em consonância com as do “Príncipe” Deputado Federal Philippe de Orléans e Bragança (PSL-SP), de quem Bolsonaro confessa ser grande admirador. Esse Deputado afirma que a “escravidão faz parte da natureza humana” (EM HOMENAGEM… 201 9).

Há uma notória afinidade entre essas concepções e a dos donos de escravos, os quais, durante a campanha abolicionista, alegavam não sentir entusiasmo por ela porque sabia “o país sem preparo, sem meios de utilizar uma raça ignorante e eivada de princípios perniciosos” (BARBOSA:1985,p.49).

Esta mesma concepção colonialista se aplica à forma como Bolsonaro trata as comunidades indígenas quando compara os índios que não estão inseridos no mercado a “homens da caverna” (BOLSONARO…2019).

No Estado fascista não havia lugar para as liberdades individuais e para a livre expressão do pensamento. No Brasil elas continuam em vigor, mas os protofascistas tupiniquins estão em campanha permanente para liquidá-las.

O alvo preferencial são as escolas públicas, com a proposta de Escola sem Partido, docentes que consideram de esquerda, com a utilização de práticas policialescas, como a gravação de aulas de professores tidos como ‘socialistas” e “partidários”.

A ideologia protofascista não é associada, como no nazismo e no fascismo, a um partido político ou embasada em texto supostamente científico, como é o caso do nazismo, cuja Bíblia era Mein Kanft. No Brasil, seu traço característico é a colagem de idéias sem consistência teórica, mas com retórica intimidadora ou sedutora, conforme o caso.

Segundo Jânio de Freitas, “o governo Bolsonaro não tem a direcioná-lo uma doutrina, nem de arremedo, que lhe dê fisionomia como razão de ser e propósito”. E arremata: “O nível médio de ignorância entre os que o habitam não permitiria lidar com idéias, rasas que fossem, nem com noções de ordem cultural, simplista embora” (FREITAS, 2019).

No fascismo, sublinha Eco, “o irracionalismo depende também do culto da ação pela ação.A ação é boa em si. Portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão” (ECO:1998. p.18).

Como dizia o próprio Mussolini, “L’azione há seppellito la filosofia”.

“O fascismo adotou a solução de um pragmatismo radical, servindo-se de uma teoria que emasculava a teoria em geral” (KONDER:1977, p.5 e 7).

No discurso ou na ação, para eIe, interessam apenas os resultados. Nessa mesma linha, Bolsonaro, tentou desmoralizar o Presidente e Vice da Argentina, Alberto Fernández e Cristina Kirchner, denominando-os, antes de serem eleitos, “bandidos de esquerda”.

Da mesma forma, o ex-capitão tentou identificar os seus críticos com a subversão, como fez em relação ao Presidente da OAB , Filipe Santa Cruz, atribuindo ao pai deste a condição de “terrorista”.

Agem, pois, como os fascistas, que extraem de seu fundamentalismo, conforme lembra Raimundo de Lima, “um gozo sádico de mal estar entre as pessoas, semeando a confusão entre elas, fazendo da contradição e do paroxismo um empreendimento de efeitos hipnóticos” (LIMA, 2013).

Vê-se que a atitude característica do protofascismo é a intolerância e a perseguição aos diferentes, aos seus modos de ser, agir e pensar. Tende sempre a desqualificar os que não se adéquam à sua camisa-de-força ideológica.

Utilizam a mesma estratégia de desmoralização, pretendendo que as universidades são “um ninho de comunistas”, fonte de “balbúrdia”, incompetência e pouca produtividade.

Essa hostilidade em relação ao mundo intelectual, salienta Umberto Eco, “sempre foi sintoma de fascismo” (ECO:2002, p.19).

Ora, a missão essencial da universidade contrasta com essa concepção rudimentarmente tecnicista: a de contribuir para a formação de um espírito crítico capaz de renovar os valores sociais e culturais existentes.

Em sentido oposto , Bolsonaro dissemina as escolas militares, ou militarizadas, no Brasil, para, supostamente, melhorar a sua qualidade “garantindo que o professor possa exercer a sua autoridade na sala de aula” (EXAME, 2019).

Jânio de Freitas assinala, a esse respeito, o papel decisivo que tiveram as escolas militares na Alemanha, ao longo dos anos trinta, para a infiltração do nazismo e do culto ao ditador (FREITAS, 2019).

Protofacistas são agenciadores de intrigas, de fofocas inventadas para prejudicar supostos adversários e desafetos. É precisamente o caso do demiurgo saído das urnas.

Ele sempre pretendeu que a facada de que foi vítima teria sido resultante de um complô da esquerda, apesar do laudo pericial acatado pelo juiz que apreciou o caso atestar a insanidade do agressor.

No caso dos nazistas, exemplo desse comportamento foi a difusão de uma teoria fantasiosa, baseada em uma suposta conspiração mundial urdida por uma aliança entre os judeus e a Rússia Soviética, destinada à destruição da Alemanha (INGRAO, 2019: p.182-185).

A versão tabajara dessa teoria se traduz na extensão, pelo bolsonarismo, do conceito de “comunista” a quase todos os seus opositores que, supostamente, pretendem trocar o verde-amarelo da bandeira brasileira pela cor vermelha, com a colaboração da mídia, sob a égide do “marxismo cultural”.

  • REFERÊNCIAS
    BARBOSA, Francisco. Notas biográficas. In: Dos Anjos, Augusto. Eu e outras poesias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985.
    “BOLSONARO representa a maior ameaça ao planeta”, diz Sonia Guajarara. Blog do Sakamoto, 25. out. 2019. Acesso em 13.2.2020.
    CHEFE da Fundação Palmares diz que a escravidão foi benéfica para os descendentes dos escravos. Https.isto é.com.br 28 nov. 2019
    ECO, Umberto. O fascismo eterno. In: cinco escritos morais. Ed. Record, 1999). EM HOMENAGEM à Lei Aurea, Deputado “Príncipe” relativiza a escravidão. notícias.uol. com.br
    FREITAS, Jânio. Inspirações para Bolsonaro. Folha de São Paulo, São Paulo, 11 ago. 2119).
    GOVERNO quer 216 escolas militarizadas e Bolsonaro fala em impor modelo. EXAME. Acesso em 13.1.2020,
    INGRAO, Cristian. CRER E DESTRUIR: os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.
    LIMA, Raimundo. Existe fascismo na esquerda? Espaço Acadêmico, n. 141,fev. 2013.
    KONDER, Leandro. Introdução ao fascismo. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.

 

  • Rubens Pinto Lyra é Doutor em Ciência Política, Professor Emérito da UFPB
  • Contato com o autor: rubelyra@uol.com.br

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