FASCISMO E PROTOFASCISMO: DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS

por Rubens Pinto Lyra

Dante Mantovani, presidente da Funarte de Bolsonaro (Imagem copiada do Catraca Livre)

A análise das teses defendidas pelos protofascistas, na Europa, influenciadas pelo nazismo, e sobretudo pelo fascismo italiano, são de grande importância para entendermos suas semelhanças com as idéias abraçadas pela extrema-direita brasileira.

O protofascismo apresenta distintas fisionomias, todas, contudo, aparentadas com o fascismo. Mas, diferentemente deste, não apresenta uma teoria homogênea, como o nazismo. Não tem, igualmente, objetivos de expansão territorial (essa também uma característica do nazismo) e de perseguição a raças consideradas inferiores. Nem dispõe de um partido de massas, enquadrado sob rígida disciplina, e adestrado para promover ataques a adversários. Mas vamos às semelhanças.

Conforme assinala Umberto Eco, grande pensador e romancista italiano, o protofascismo “trocou a violência aberta, característica dos seguidores de Hitler e Mussolini, por uma retórica agressiva” (ECO:1998, p.16). Inseparável, tanto uma quanto outra, do carisma do líder. É o que ocorre no Brasil. O bolsonarismo associa essa retórica (ex. ameaça feita pelo atual presidente militar de “fuzilar os petralhas”) com a ação no âmbito institucional, jogando com essa dubiedade com objetivo de manter a fidelidade de seus militantes e, ao mesmo tempo, assegurar apoio político para governar. Portanto, em vez de atuar com a violência explícita, os protofascistas de diferentes perfis optam por praticar micro-violências não assumidas.

Prevendo o seu agravamento dessas práticas, com o assassinato de Marielle e a eleição de Bolsonaro, Jean Willis, ex Deputado Federal pelo PSOL, ameaçado de morte, preferiu autoexilar-se na Alemanha. Exemplar, ainda a esse respeito, foi o atentado terrorista praticado contra a produtora Porta dos Fundos, gravado em vídeo, por ter associado Jesus Cristo à homossexualidade, sendo significativo o silêncio de Bolsonaro e do ministro da justiça e da segurança pública, Sérgio Moro, em relação à questão.

No Brasil, se a extrema direita não dispõe de milícias organizadas, como os fascistas, conta com uma espécie de milícia virtual que atua através do marketing religioso e político, manipulando os desejos e as carências de incautos nas redes sociais. Ela também não dispõe explicitamente, como Gobbels na Alemanha, da máquina estatal para divulgar inverdades. Mas utiliza o mesmo método do dirigente nazista e dos fascistas: a propagação massiva de mentiras sob a forma de fake news, como ocorreu, por exemplo, nas últimas eleições presidenciais, com a difamação sistemática do candidato Fernando Haddad para, com sua repetição exaustiva, terminar por fazê-las passar por verdadeira.

Umberto Eco lembra que a ideologia protofascista odeia o pluralismo na política, na cultura e na literatura. Assim “o protofascista é um conservador dos valores tradicionais, do ideário militar e do machismo. Transfere sua vontade de poder para questões sexuais, o que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante a hábitos sexuais não conformistas, como a homossexualidade” ECO: 1998, p.17).

No caso brasileiro, a defesa dos valores tradicionais tem especial relevância, manifestando-se em um ultra-conservadorismo caricato, como comprovam as inacreditáveis declarações do novo Presidente da Fundação Nacional de Artes – Funarte, Dante Mantovani. Para esse dirigente, terraplanista e aluno de Olavo de Carvalho, “o rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto. Esta, por sua vez, alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lenon disse que fez um pacto com o diabo” (AZEVEDO, 2020).

  • REFERÊNCIAS
    AZEVEDO, Reinaldo. O Dante deles: na FUNARTE, um terraplanista vê Satã em Elvis e nos Beatles. Folha de São Paulo, São Paulo, 12.1.2020.
    ECO, Umberto. O fascismo eterno. In: cinco escritos morais. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998 (PDF).
  • Rubens Pinto Lyra é Doutor em Ciência Política e Professor Emérito da UPB

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