MINHA PRIMA VERA

Odeia quando a chamo assim.

“Coisa mais besta, Rubinho”, reclama. Agora, quando junta irritação com falta de paciência, ela cancela no ato o nosso parentesco. “Precisa me chamar de prima, não. Se for pra vir com esse trocadilho cafona, mais batido que t… de lavadeira, pode esquecer que eu existo”, avisa.

Não se espantem. Minha Prima Vera é desbocada por natureza e não se encabula um tico quando recorre aos palavrões mais cabeludos para falar comigo ou qualquer outra pessoa. Bota os bichos pra fora numa boa. Não importa assunto, ambiente, sexo, idade, patente…

Prima Vera é “pessoa muito positiva”, diria meu avô Milão, pai do Professor Vicente, meu saudoso pai, quando queria definir alguém como alguém sem papas na língua. Josias, o maridão, concorda. Tanto que sai ligeiro de perto quando percebe que a mulher vai ficar mais Vera do que nunca.

“Sou nem doido de falar. Tu sabe como é, né?”. Respondo que não, de riso contido, já sabendo que ele vai dizer algo tipo “Meu amigo, quando aquela mulher se espaia, num tem omi no mundo que junte”.

De uma coisa tenho certeza. Apesar de tudo e do jeito Vera de ser, eles se gostam um bocado. Caso contrário, não estariam juntos há mais de 30 anos, os dois quase da mesma idade jamais revelada. Presumíveis cinquentões, nas minhas contas.

Tiro porque vejo, de uns tempos pra cá, Prima Vera bastante preocupada com o futuro dela e “dos meninos” (o mais novo com 18, o mais velho com 23). Depois “da condenada dessa reforma, acho que vamos até passar fome”, disse-me outro dia.

Mas ontem ela me ligou já para pedir “uns conselhos”, como se eu fosse entendido em previdência, talvez por eu ter dito em alguma ocasião que trabalhei no jurídico de uma empresa. Só não disse em quê. Bem, de qualquer modo, Vera me abordou e me surpreendeu perguntando como fica a situação dela se Josias morrer.

“Pelo amor de Deus, Rubinho, não comente p… nenhuma com seu ninguém, principalmente com ele, viu?”, pediu, emendando: “É verdade que se Josias morrer eu vou ficar só com 60 por cento do que ele ganha, é?”. Minha resposta, sincera: “Parece que não. Pelo que ouvi o rapaz dizer esta semana, na televisão, viúva só vai ter direito à metade”.

“Sério? Esses filhos da p… tiveram coragem de fazer isso”, estourou. Atalhei: “Mas tem uma vantagem, Vera. Além dos 50 por cento, a viúva ganha mais 10 por cento por cada dependente, até atingir 100 por cento do salário que era pago ao falecido”. Pela respirada funda que ouvi do outro lado da linha, senti que ela não se aguentou. Não mesmo.

– Dependente quer dizer filho, filho menor, né? Que c… de vantagem é essa, Rubinho, se 99 por cento das mulheres enviúvam com mais de 60, velhas, acabadas, cheias de doença e remédio pra comprar… Meu Deus, o que vai ser da gente? E ainda tem uns idiotas batendo palma pra esses bandidos que fizeram essa sacanagem – mandou ver.

Tentei acalmá-la. Sugeri que ela e Josias poderiam fazer mais três filhos antes de ele se aquietar pra sempre. “Com a medicina avançada do jeito que tá hoje, Prima Vera, mesmo com idade avançada não vai ser problema arrumar bucho nem dar à luz. Aí, se ele falecer, você pode chegar a 80 por cento da pensão que Josias deixar”, completei, já fastando o celular da orelha.

– Ok, Rubinho, agradeço demais seu conselho. Muito bom, muito bom mesmo. Mas faça o seguinte: em vez de fazer piada, por que você não vai tomar…?

Desligou.

  • Crônica publicada originalmente no M de Marias.
  • Foto por mera ilustração copiada de karriere.at/blog

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