UM MILHÃO DE TERRORISTAS? por Rubens Pinto Lyra

Talvez seja mais difícil executar os Doze Trabalhos de Hércules do que conseguir identificar quais das declarações do capitão reformado, ora investido na Presidência da República, são mais desastrosas. Ou, visto por outro ângulo, quais delas são mais expressivas de suas concepções político-ideológicas e de sua estratégia de governo.

De todo modo, não há dúvida de que figura em lugar de destaque sua acusação referente às manifestações populares ocorridas neste mês outubro no Chile – as maiores de toda a sua história – às quais ele atribuiu caráter “terrorista”.

A declaração expressa, antes de mais nada, o absoluto desprezo do personagem que nos governa pela verdade dos fatos, traduzindo-se em ofensa sem precedentes ao povo chileno.

Com efeito, o próprio Presidente atual do Chile, o conservador Sebastian Piñera, adversário nº 1 da esquerda nesse país, terminou por reconhecer a legitimidade daquelas manifestações. Tanto que pediu desculpas aos seus compatriotas por não ter compreendido melhor seus anseios, que aquelas manifestações lhe permitiram agora melhor perceber.

Outra característica do personagem em questão, identificado como “vagabundo” pelo líder do seu próprio partido (PSL) no Senado, Delegado Waldir, é a de ter como fio condutor de suas análises teorias da conspiração que lhe fazem sempre ver chifre em cabeça de cavalo. No caso em espécie, uma conspiração das esquerdas latino-americanas materializada em “atos terroristas”.

A propósito, a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, Alta Comissária dos Direitos Humanos na ONU, já havia sido objeto de ataque de Bolsonaro, desqualificando o seu pai, general da Aeronáutica Alberto Bachelet, preso, torturado e assassinado pela ditadura chilena, como “comunista”, ao tempo que a elogiou por ter, pretensamente, impedido o comunismo nesse país.

Nesse mesmo diapasão, Bolsonaro afirmou que o pai do Presidente da OAB, Filipe Santa Cruz, era terrorista e foi morto pelos seus companheiros na luta contra o regime militar, em frontal desacordo com as conclusões do próprio Exército e da Comissão Nacional da Verdade, que afirmam ter sido Filipe morto pelo DOI-CODI do Rio de Janeiro.

Nos dois casos, mistura debates de natureza pública, suscitados pelo posicionamento dessas duas autoridades, com acusações falsas e mesquinhas, de ordem pessoal.

No primeiro, o “diagnóstico” da situação chilena se faz acompanhado de ameaças a manifestações análogas que possam ocorrer no Brasil, que seriam reprimidas pelas forças de segurança, com base no dispositivo constitucional de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

Uma terceira característica de sua estratégia de governo, inédita na história das relações do Brasil com outras nações, foi a de qualificar Alberto Fernández e Cristina Kirchner, respectivamente, Presidente e Vice-Presidente eleitos da Argentina, quando ainda candidatos, de “bandidos de esquerda”.

Aliás, os posicionamentos do capitão reformado confirmam a reiterada interferência de um viés ideológico radical, em perfeito contraste com suas promessas de retirar toda conotação ideológica das ações de governo. Viés ideológico que tem como pano de fundo a sua indisfarçada simpatia por ditaduras militares, consideradas superiores às democracias que elas destroem para, supostamente, salvarem países do “comunismo”.

Esse é o busílis da questão: a pregação favorável a ditaduras, consentânea com a sua reiterada afirmação de que ela não existiu durante o regime militar brasileiro, se aceita passivamente, legitimará um comportamento golpista do atual presidente. Além disso, repetida sistematicamente, sem ser rebatida, fará que muitos terminem por considerá-la verdadeira.

O posicionamento em torno dessa questão constitui um divisor de águas, que impõe a condenação incisiva de todos os democratas a atitudes dúbias, lenientes ou omissas em relação à democracia e aos princípios de liberdade e de igualdade que lhes servem de esteio.

  • • Rubens Pinto Lyra é Doutor em Ciência Política e Professor Emérito da UFPB
  • A foto da grande manifestação em Santiago do Chile, na sexta-feira (25), é de Pedro Ugarte, da AFP
  • A foto da bandeira mapuche desfraldada sobre monumento na capital chilnena é da atriz Suzana Hidalgo

Comente UM MILHÃO DE TERRORISTAS? por Rubens Pinto Lyra

  1. Jose pinto Disse:

    Este nosso presidente precisa ser logo internado antes que se suicide e coloquem culpa nos pobres terroristas ou comunistas!!!kkkkkkkkkk

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