QUERIA SER O TERRENO DA ENARQ

O mais desejado imóvel da Paraíba não é mansão no Cabo Branco nem cobertura no Altiplano de João Pessoa. Porque não tem quem possa com o famoso terreno da Enarq, marginal à Estrada de Cabedelo, imprensado entre uma loja e outras de automóvel.

Enarq foi próspera construtora que morou naquele endereço por mais de 20 anos, creio, entre as décadas de 70 e 90 do século passado. Fechou, faliu. Mas não se tem notícia de que o triste evento tenha abalado tanto assim seu dono ou sócios. Muito provavelmente graças aos R$ 5,5 ou 6 milhões semeados pela Viúva estadual naquele terreno em 2004, se não me engano, à guisa de desapropriação.

A intenção explícita do negócio não era salvar a lavoura dos órfãos da empresa, obviamente, mas construir naquele pedaço um campus decente para a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) na Capital. Todavia, sem verba ou apoio real de governo, a instituição teve que se contentar em se instalar feito posseira em algumas salas e dependências outras de um colégio do Estado no bairro do Cristo Redentor.

Como sempre fora das prioridades governamentais, não tinha como ser outro o desfecho para a malograda tentativa de erguer no valorizadíssimo espólio da Enarq uma sede digna para a antiga Universidade Regional do Nordeste, a velha Urne de guerra que o professor Tarcísio Burity, no papel de governador, resolveu incorporar ao patrimônio público da Paraíba quando acreditava dar aula de política no Palácio da Redenção.

Por essa e tantas outras, dá pra ver que o terreno da Enarq nunca foi pro bico de uma universidade que até hoje pena para se manter como tal. O episódio inaugural dessa história de cobiça mostra, portanto, que aquela área parece ter vocação para sediar obras bem mais ambiciosas, seguramente muito mais caras e claramente pouco ou nada conectadas com o real interesse público, a exemplo do projeto anunciado ontem (2) pelo deputado Adriano Galdino, presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba.

Mais uma vez à frente do Parlamento estadual, agora por dois mandatos consecutivos, quatro anos atrás o mesmo Galdino tentou mudar a sede da Assembleia de onde está, no centro do centro da cidade, para o prédio do finado Paraiban na avenida Epitácio Pessoa. Mudança que exigiria – acreditem! – torrar R$ 30 milhões da Surda e Muda (também conhecida como erário) em reformas felizmente barradas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).

O TCE botou uma pedra fundamental em cima do negócio. Afinal, sobre a licitação aberta para tanto pesavam e sobravam suspeitas de superfaturamento e evidências de direcionamento para entregar a obra a determinada empresa. Além de fundado estranhamento sobre como seria possível – ou crível – ‘ajeitar’ apenas quatro dos seis pavimentos existentes por R$ 30 milhões. Por R$ 30 milhões!

Na época, escrevi aqui que a Assembleia “não deveria sair de onde está principalmente porque com os R$ 30 milhões alocados para a reforma do saudoso Paraiban é perfeitamente possível ampliar a atual sede do Legislativo estadual com ganhos extraordinários de funcionalidade, acessibilidade, conforto e segurança para o público, servidores do Poder e deputados”.

Tanto ontem como hoje, repito: com R$ 30 milhões “dá pra manter o Legislativo na Praça dos Três Poderes, seu locus natural, seu lugar por direito e história”. Com essa grana, daria para desapropriar – com folga – todo o quarteirão da Praça João Pessoa ao Ponto de Cem Réis e lá construir um novo plenário, novos gabinetes, creches, estacionamento, salão de beleza pra 36 primeiras-damas, o escambau!

Aliás, nem precisa de R$ 30 milhões. Dá muito bem pra fazer tudo isso com os R$ 17 milhões que se pretende gastar no puxadinho de luxo na beira da BR. Lembrando ainda que dois anos atrás, para o mesmo local e levando quase o mesmo valor na bagagem, o Ministério Público da Paraíba (MPPB) anunciou intento de buscar aconchego no mesmo e tão desejado terreno da Enarq.

Pelo visto, atualmente o MP estaria disposto a repassar a joia para a Assembleia, suspendendo uma obra que todas as crises e carências maiores da população dizem ser inoportuna. Para dizer o mínimo e deixar minimamente claro que, sendo assim, suas ideias, presidente Galdino, não correspondem aos fatos.

Com a ampliação da Assembleia no quarteirão da Assembleia, até o Paraíba Palace entraria no pacote de compra, junto com todos os outros anexos. Para acabar de vez com o aluguel e essa história de que uma nova sede, subsede – o que for – é pra economizar dinheiro de aluguel.

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