O VOTO DO DESENCANTO, por Rubens Pinto Lyra

Bolsonaro ensina criança a imitar arma com a mão (Foto: Reprodução/2018)

Os resultados das eleições presidenciais demonstram que a entronização do capitão reformado na Presidência não resultou da identificação da maioria dos seus eleitores com algum programa ou conjuntos de propostas, harmônicas e consistentes para o país.

Declarações recentes do seu guru-mor, o intelectual de extrema-direita Olavo de Carvalho, não deixam nenhuma dúvida a respeito. Disse não saber “quais são as idéias políticas do presidente” e completou: “Fala de um assunto e de outro, mas nunca vi uma concepção geral, uma ideologia”. Nessa linha, o apoio dar-se-ia apenas e tão somente por Bolsonaro “ser um homem honesto e não um ladrão”.

Essas declarações, vindas de quem deveria, em tese, conhecer a fundo o pensamento do Presidente extremista, afirmando desconhecê-lo, ajuda a compreender o voto de importantes setores populares com muito menos acesso à informação, que optaram pelo militar como forma de expressarem sua repulsa à “velha política” e ao partido que paradoxalmente a representava.

Eles se sentiram frustrados com o PT, transformado em bode expiatório das mazelas nacionais. E, sem identificar alternativa política convincente, acreditaram nas promessas de pulso forte e luta sem tréguas contra a corrupção.

Não obstante, ainda não se chegou com clareza às razões mais profundas pelas quais um candidato de idéias toscas, despreparado e desequilibrado, a favor da tortura e do regime militar de 1964, foi aclamado como um “mito”. E, tal como Hitler e Mussolini, supostamente escolhido pela Providência como “salvador da pátria”.

Da mesma forma, permanece a perplexidade sobre o seu êxito, a despeito do caráter virulento de sua campanha, que teve como leitmotiv a pregação discriminatória contra homossexuais, pobres e defensores de direitos humanos. E, especialmente, contra os “petralhas”, os “esquerdopatas” e os “comunistas”, apresentados como inimigos da Pátria.

Nisso também há semelhanças com fascistas e nazistas, que pretenderam identificar em minorias – judeus e comunistas – os responsáveis pelos males da nação. Tratava-se, supostamente, de defendê-la contra esses “inimigos internos”. Não obstante, consolidados no poder, liquidaram toda a oposição.

Segundo o reputado filósofo francês Jacques Rancière, se compete à polícia enfrentar o crime, cabe à política enfrentar o ódio. Para ele, somente refletindo-se sobre suas causas poder-se-á enfrentar essa verdadeira lógica de guerra, de caráter sócio-psicológico, criando as condições para construir um pensamento e uma estratégia contra-hegemônicas.

Rancière considera a politização do desencanto com a política “o melhor antídoto contra sua instrumentalização por parte daqueles que querem encontrar falsos bodes expiatórios”.

O caminho apontado por esse filósofo é o de estudar as causas desse desencanto e dessa frustração, dos processos e discursos que alimentam o ódio, além de combater suas raízes sociais: o desemprego, as desigualdades e as diferentes discriminações.

Trata-se de um objetivo que necessitará de múltiplos enfoques para ser alcançado: análise das causas sócio-econômicos geradoras da apatia e da descrença políticas e das suas diferentes manifestações, combinando, ademais, os enfoques psicológico e da psicanálise com as determinações de natureza material.

Não é possível contentar-se com o discurso justificador do voto do eleitor em Bolsonaro. Há que relacioná-lo à censura do superego, que funciona como inibidor das autênticas manifestações da individualidade.

Impõe-se a análise das motivações mais profundas, nem sempre conscientes – especialmente no caso de muitos evangélicos e católicos – para explicar o seu ódio às esquerdas, determinadas pelos seus interesses de classe, colocando em segundo plano o respeito aos princípios axiais da fé cristã, contrários à intolerância e à violência.

  • Rubens Pinto Lyra é Doutor em Direito Público e Ciência Política, Professor Emérito da UFPB

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