DIALETICAMENTE COMPLEMENTARES, por Rubens Pinto Lyra

Karl Kautsky, à direita, com Eduard Bernstein em 1910 (Foto copiada do Diário Liberdade)

Kautsky, a despeito de tratado por Lênin e pelos comunistas como “o renegado”, foi considerado o maior teórico marxista do último quartel do século XIX e do primeiro do século XX, depois de Marx e Engels. Deste, aliás, foi executor testamentário e principal colaborador.

Suas previsões sobre a inevitável débâcle do “comunismo” soviético, também chamado de socialismo real, feitas reiteradas vezes, nunca foram aceitas, devido à influência determinante de Lênin e da Revolução Russa na esquerda mundial. Esta jamais imaginou que um dia esse regime viesse a desaparecer, ainda menos por exaustão e nas condições e proporções avassaladoras em que ocorreu, varrido do mapa da Europa por manifestações populares que o colocaram na lata do lixo da história.

Essa dura realidade a mesma esquerda até hoje não assimilou, atribuindo a extinção do suposto comunismo a “deformações burocráticas” e à “falta de democracia”. Portanto, a erros na construção do socialismo, derivados do stalinismo, que não foi senão um sub-produto do leninismo. Com efeito, Lênin apostou, de forma temerária, na possibilidade de empreender a sua edificação em um país de economia semi-feudal, pré-capitalista e com um proletariado numericamente inexpressivo, como foi o caso da Rússia Tsarista.

Não foi por outra razão que Kautsky, em 1918, há cem anos, portanto, ainda nos primeiros meses da Revolução Russa, fez essa advertência profética: “Os bolcheviques estão condenados à sina de aprendizes de feiticeiro: voltados à realização de um objetivo impossível, eles se verão acuados a permanecer no poder, mas terão para isto que renegar o seu programa ou se tornarem agentes de um processo histórico radicalmente estranho às idéias socialistas”.

Tudo isso porque, do ponto de vista da concepção marxiana, o capitalismo desenvolvido, que produz uma classe trabalhadora numerosa, é condição sine qua non para que o processo revolucionário socialista possa, com características democráticas, efetivar-se. Ora, esses dois agentes, objetivamente indispensáveis a seu êxito, inexistiam na Rússia tzarista.

“O socialismo”, já dizia Marx no Manifesto Comunista, “é o movimento de uma imensa maioria” e não apenas para uma imensa maioria. O “substituísmo” levado a cabo por Lênin, tornando o Partido agente e condutor da mudança, retira um dos requisitos fundamentais do socialismo, pelo menos do ponto de vista de Marx. Este sempre o concebeu como produto da organização e luta do conjunto da classe trabalhadora, únicos fatores susceptíveis de lhe conferir caráter democrático.

Há noventa anos atrás, em 1930, avaliando o regime stalinista, Kautsky já antevia o que se consumou, sessenta anos depois, com a queda do Muro de Berlim. Esta louca experiência vai terminar em um estrondoso fracasso. Nem mesmo o maior dos gênios poderá evitá-lo. Ele resulta naturalmente do caráter irrealizável da empreitada, nas condições dadas, com os meios utilizados. Quanto maior é o projeto, maior a violência para obter resultados, que só poderiam provir de uma lâmpada mágica, como a de Aladim.

É esse desconhecimento da impossibilidade histórica de se construir o socialismo através de vanguardas iluminadas, hoje encarnadas em líderes portadores de um duvidoso populismo, muitas vezes atentando contra a vontade dos próprios trabalhadores, que explica o apoio dado por certa esquerda ao regime de Nicolás Maduro. Não compreenderam que, para Marx, a democracia aparece, ao mesmo tempo, como ponto de partida, a forma constante e o objetivo último do socialismo. Ela não pode ser definida como uma simples exigência do socialismo. Deve ser considerada sua própria essência.

  • Rubens Pinto Lyra é Doutor em Direito Público e Ciência Política e Professor Emérito da UFPB
  • Contato: rubelyra@uol.com.br

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