Professor defende que MP investigue Estação Ciência

O ângulo mostra a Estação construída perto do mar e a mata que precisou derrubar (Foto: TripAdvisor)

Professor aposentado da UFPB, dos mais experientes jornalistas da Paraíba, Arael Costa defende que o Ministério Público da Paraíba investigue todos os procedimentos administrativos e danos ambientais relacionados à construção da Estação Ciência no Altiplano do Cabo Branco, em João Pessoa.

Projeto do escritório do arquiteto Oscar Niemeyer, orçada inicialmente em R$ 11 milhões, no final a obra custou R$ 33,5 milhões em verbas federais e edificações de mais de 8,5 mil metros quadrados em pedra e cal sobre a barreira do Cabo Branco. Foi inaugurada em 3 de julho de 2008 pelo então prefeito Ricardo Coutinho. Pouco tempo depois, apresentou defeitos construtivos graves, de rachões a infiltrações e inadequações várias nos prédios.

Arael quer que a investigação do MP pegue “desde a elaboração do projeto e o desenvolvimento dos estudos que basearam sua edificação, a obra e seu financiamento e sua manutenção”. A apuração, entende o professor, deve envolver a Promotoria de Justiça que cuida das questões de meio ambiente e algum órgão da instituição dedicado a desvendar supostos crimes contra a administração pública.

Construída sob protestos de ambientalistas sem vínculo político com o grupo que à época comandava o governo municipal, à Estação Ciência atribuem o agravamento da erosão que nos últimos dez anos vem acelerando o avanço do mar e a destruição da falésia na ponta do Cabo Branco. Algo previsível por quase todo mundo preocupado com a preservação da área, acentua Arael em carta que o blog transcreve na íntegra a seguir.

Diga aí, Professor

Caro amigo,

Acabo de ler a matéria do Correio da Paraíba sobre a Estação Ciência.
Infelizmente, constato que os meus temores, há muito manifestados a você, estão se tornando realidade.

A esta altura dos acontecimentos, não são os defeitos de projeto ou os erros intencionais ou involuntários de sua execução que interessam, mas as consequências de um planejamento irreal ou com objetivos outros que não o propalado.

Ao imaginar localizar naquela área um clone de projeto grandioso já existente em cidade sulina, os seus patronos, se agiam de boa fé, foram ingênuos ou inconsequentes ao ignorar as condições geológicas, que poderiam ser adversas, que o projeto enfrentaria.

Sempre foi voz corrente, até mesmo entre leigos, que o terreno do altiplano do Cabo Branco é um terreno extremamente frágil e instável.

Lamentavelmente, ele começou a pagar um preço à natureza a partir do instante em que o homem começou a intervir em formação geológica, ainda nos anos 50, do século passado, até os tempos presentes, quando, a pretexto de permitir uma expansão do conglomerado metropolitano litorâneo, nossas autoridades patrocinaram ou permitiram que essa área fosse submetida a uma carga e esforços muito além de sua capacidade.

Adotaram um proceder que alcançou seu ápice com a edificação desse monumento arquitetônico, que gradativamente vai se transformando em um monstro devorador, consumindo o monumento natural que ainda compõe o mesmo espaço.

Enfrentar as suas ameaças não vai ser fácil, notadamente porque há uma sobreposição de procedimentos a gerar novas ameaças à área, seja com a ocupação urbanística que aumenta a carga física sobre o terreno que a constitui, seja com a devastação inconsequente da vegetação que mantém a sua estabilidade.

Com estas considerações, ouso pensar ser chegada a hora de uma intensa interveniência investigatória do Ministério Público em todo esse processo, desde a sua elaboração e o desenvolvimento dos estudos que basearam sua edificação, a obra e seu financiamento e sua manutenção.

Que tal investigação seja levada a cabo pelo segmento ministerial de defesa do meio ambiente e outro que cuida dos procedimentos, às vezes bastante preocupantes, de concretização de projetos como esse.

Esperemos, pois.

Arael Costa

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