NEM MADURO NEM GUAIDÓ! por Rubens Pinto Lyra

(Fotomontagem meramente ilustrativa: Maduro X Guiadó – Meridional FM)

Orgulho-me da opção feita pela democracia e pelo socialismo, ainda nos verdes anos da minha juventude, mas seguindo o mesmo entendimento de quem melhor teorizou sobre o tema.

Com Marx, jamais dissociei um do outro. Se as teses do genial fundador do materialismo histórico ganharam ampla aceitação junto às massas exploradas, também suscitaram o ódio das classes dominantes. Estas, auxiliada pela mais crassa ignorância a respeito do marxismo, conseguiram associá-lo à ditadura, à opressão e ao atraso econômico, social e político. Quer dizer, precisamente o oposto do que ele representa.

Para isso contaram – e contam ainda – com a colaboração ativa de setores ponderáveis da esquerda, que apostaram e perderam na identificação do socialismo marxiano com o mal denominado socialismo real, soterrado pela sua intrínseca obsolescência e pela insurreição vitoriosa dos que viviam sob seu jugo.

Em contraste com esse regime – uma combinação pouco virtuosa de economia estatizada com o poder político exercido por um partido identificado com os interesses da casta dirigente – a nomenklatura, Marx anunciava, desde a publicação do Manifesto Comunista, uma sociedade na qual, abolida a propriedade privada dos grandes meios de produção, seriam eles geridos pelos próprios trabalhadores.

Nunca por uma burocracia, nem por um partido único, tal como ocorreu na extinta União Soviética, conformando um sistema em tudo oposto aos interesses do proletariado, com os trabalhadores explorados economicamente e privados de seus direitos políticos pela ditadura de um partido. Pior do que no capitalismo, pois neste, ao menos, os trabalhadores, nas democracias liberais-representativas, gozam de liberdade política.

A influência das concepções leninistas, justificadoras do partido de vanguarda, e das restrições às liberdades democráticas, que moldaram o finado socialismo real, ainda que declinantes, mostram o seu vigor, na medida em que regimes como o da Venezuela, que degeneraram em uma ditadura bonapartista e militarista, continuam a merecer sustentação da maioria das lideranças e partidos de esquerda.

De há muito venho advertindo que a cumplicidade ativa de partidos como o PT com o governo de Maduro é prenhe de consequências funestas: no plano econômico, na medida em que dá fôlego a uma economia condenada à falência, como confirma a sua recente evolução. No plano político, por desacreditar a esquerda com seu endosso a um regime ditatorial, que se volta contra o seu próprio povo para se manter no poder.

Em artigo escrito sobre Kautsky, em junho de 2017, registrei, criticamente, exemplar posicionamento a esse respeito, da lavra de Rui Falcão, então Presidente do PT. Este se solidarizou com o regime de Maduro, “que enfrenta com coragem as tentativas golpistas, em nome de dois milhões de filiados ao PT”.

Na esteira desse pronunciamento, a Presidente do PT, Gleisi Hoffmann, compareceu em 10 de janeiro de 2019 à posse de Nicolás Maduro, fazendo questão de reconhecer a legitimidade de sua eleição. Em contraponto a essa estratégia suicida, existem socialistas de indiscutível respeitabilidade, como o ex-Presidente do Uruguai, José Mojica, que não hesitou em afirmar, já em maio de 2016, que o ditador bolivariano “está louco como uma cabra”. E como Jean Wyllys, para quem “apoiar Maduro é erro de avaliação da esquerda”.

Não adianta apenas alegar que o imperialismo americano quer derrubar Maduro. Esse fato indiscutível não anula a necessidade de se reconhecer o esgarçamento da democracia venezuelana, buscando-se, simultaneamente, costurar um entendimento nacional que evite a guerra civil na Venezuela.

Nem Maduro nem Juan Guaidó!

  • • Rubens Pinto Lyra é Doutor em Ciência Política e Professor Emérito da UFPB
  • • Contato: rubelyra@uol.com.br

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