Mais de 500 pessoas desaparecem a cada dois anos na Paraíba

(Foto: Francisco França/Correio da Paraíba)

“Seu Francisco (nome fictício) saiu para comprar o pão da janta e nunca mais voltou, nunca mais foi visto por familiares ou amigos”. Essa história impressionou-me demasiado na adolescência, quando morei sete ou oito meses em Santa Rita.

Francisco era um quase vizinho de Pai Milão e Mãe Damiana, meus avós paternos, na Rua Monsenhor Melibeu do Bairro do Cercado, denominação antiga do hoje Bairro da Liberdade, o mais populoso da Zona Norte da segunda maior cidade da região metropolitana de João Pessoa.

Muito provavelmente Francisco já não era mais deste mundo em 1969, quando ouvi pela primeira vez – de alguém que não lembro – falar daquele pacato e apático cidadão que desapareceu sem deixar pista nem vestígio do rumo que tomara ou do fim que levara, trágico ou não.

Por conta de tal perfil, praticamente todos que tocavam no assunto descartavam de pronto qualquer hipótese de sequestro seguido de assassinato, com presumível sumiço do cadáver. Em razão disso, a Polícia teria desistido de procurar o homem menos de uma semana após ser acionada por Dona Maria, mulher de Francisco.

O – quem sabe? – abduzido deixou dois filhos pequenos. Com as crianças e esposa habitava casa de esquina, tão modesta quanto as mais próximas, mas com uma singularidade. O acesso ao terraço, erguido sobre pedra grande e larga que ocupava toda a frente da residência, exigia de morador ou visita subir três metros de escadaria de batente estreito.

Dona Maria, coitada, botou luto no terceiro mês depois do desaparecimento do marido. Convenceu-se de que ele não mais voltaria. Não porque não quisesse, mas porque não mais poderia. Precisava e passou a acreditar nisso e, até onde pude assuntar, apesar de jovem, bonita e das propostas que recebeu, fez-se viúva pelo resto da vida.

Pois bem…

Achava extraordinário o caso de Francisco de Santa Rita até saber ontem (30) que mais de 500 pessoas desaparecem a cada dois anos na Paraíba. O dado será exposto e debulhado amanhã (1º) em um seminário sobre crianças desaparecidas que os Conselhos Federal e Regional de Medicina da Paraíba (CFM e CRM-PB) promovem em João Pessoa.

A Paraíba não dispõe de estatística precisa sobre quantas crianças somem de casa ou são subtraídas anualmente de suas famílias. O Centro de Informações da Polícia (Ciop), que recebe denúncias sobre desaparecidos, ainda não classifica as ocorrências segundo a faixa etária das vítimas. Mas deve começar a fazer isso em breve, porque “uma das propostas do seminário é justamente estimular e provocar as instituições a coletar essas informações de modo mais eficiente”, adianta texto de divulgação do evento.

Conselhos de Medicina e instituições parceiras que defendem crianças e adolescentes pobres mobilizam-se para conquistar apoio efetivo e engajamento permanente dos órgãos de segurança pública na formação de uma rede proativa e combativa no enfrentamento do problema. Um problema gigantesco: em todo o país, 50 mil crianças e adolescentes desaparecem todo ano.

No acumulado, estima-se em 250 mil o número de meninos e meninas “de paradeiro incerto”, conforme noticia a chamada crônica policial. Especialistas no tema calculam que 70% das crianças e adolescentes desaparecidos fogem de casa por problemas domésticos e 15% nunca mais reencontrarão suas famílias. No mundo, o desaparecimento alcança 25 milhões de pessoas de todas as idades.

O VI Seminário de Crianças Desaparecidas, nome oficial da atividade, começa às 9h desta sexta-feira no auditório do CRM (Avenida Dom Pedro II, 1335, Centro de João Pessoa). Inscrições gratuitas pela Internet (eventos.cfm.org.br).

  • • Com informações da Formato Assessoria de Comunicação

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