CIRO GOMES NO MURO, por Rubens Pinto Lyra

Ciro: Lula agora é “traidor” e Leonardo Boff, um “bosta” (Foto: Roosewelt Pinheiro/Agência Brasil)

A decisão de Ciro Gomes permanecer em cima do muro, durante o segundo turno das eleições presidenciais, recusando peremptoriamente declarar seu voto à Fernando Haddad (limitou-se ao “ele não” e ao enigmático voto “pela democracia”) é prenhe de consequências.

Àquela decisão sucedeu, após o segundo turno, uma série de impropérios lançada contra o PT e seu Presidente de Honra, Lula. “O lulopetismo virou um caudilhismo corrupto” e Lula, um “traidor”. Ciro recebeu como “insulto” o convite que lhe fez para compor a chapa do PT como Vice-Presidente.

Por tê-lo criticado, o venerando religioso frei Leonardo Boff foi xingado por Ciro como um “bosta”, “bajulador de Lula”.

O ex-ministro de Lula disse ainda que “jamais voltará a fazer campanha com o PT”. Quer “fundar um novo campo, onde para ser de esquerda não tem de tapar o nariz com ladroeira, corrupção, falta de escrúpulo e oportunismo”.

Virulento contra o petismo, Ciro apresenta-se agora como um contraponto moderado ao novo governo, como demonstrou por ocasião do ataque do ex-capitão à Folha de São Paulo. O militar afirmou que esse jornal “já acabou” e que não o incluirá na publicidade governamental. Concluiu, provocando: “Imprensa livre, parabéns! Imprensa vendida, meus pêsames”.

Ciro não enxergou, nesse episódio, e nos demais ataques à Folha e à imprensa em geral, nenhuma ameaça! Mesmo reconhecendo que, no segundo turno, estava em jogo a democracia, assumiu deliberadamente o risco de pô-la a perigo, ao recusar-se a fazer campanha pelo candidato que a representava, subsumindo sua defesa aos seus interesses pessoais.

Ao deixar o voluntarismo sobrepujar a coerência política e o equilíbrio emocional, Ciro evidenciou seus limites e os de seu partido, ambos desprovidos de consistência ideológica. Muitos dos que antes o prefeririam como candidato único das esquerdas, ou dos que votariam nele no segundo turno, hoje não mais sequer aceitariam nele votar.

O bloco de partidos de esquerda, liderado pelo PDT e pelo PSB – com exclusão do PT -, nasce sob a liderança de Ciro Gomes – aquele que fugiu da raia – com as principais lideranças do seu partido tendo aderido, no segundo turno, ao bolsonarismo (o caso dos quatro candidatos a governador). Frise-se, à extrema direita.

Já o PSB, ao também não fechar questão, no segundo turno, no voto em Haddad, priorizou suas chances de eleger seus candidatos a governador, liberando alguns para ficarem “neutros”. Mas não houve adesão ao bolsonarismo.

Essa subsunção da luta pela democracia aos interesses partidários enfraquece a credibilidade das esquerdas e acentua sua divisão interna, justamente quando o país mais necessita de partidos efetivamente comprometidos com a democracia. E, consequentemente, de uma oposição sem meio termo ao novo governo. Oposição que necessita, igualmente, que se constitua ampla frente democrática na sociedade – sem quaisquer exclusões.

Já aos partidos impõe-se a unidade, na base de pactos explícitos, evitando hegemonismos de qualquer natureza e estrelismos, tão caros a lideres de incontestável brilho, como Ciro Gomes.

São, portanto, em condições adversas que as esquerdas deverão se recompor de sua profunda derrota, e do seu povo, que votou contra seus próprios interesses. Mas hoje se reconhece já não ser possível adiar a hora da verdade.

Às “forças progressistas” impõem-se assumir a democracia como sua maior bandeira e fazer finalmente sua autocrítica, tantas vezes cobrada por quem temia a sua derrocada, mas também por toda a sociedade.

  • O autor é Doutor em Direito Público e Ciência Política e Professor Emérito da UFPB
  • Contato: rubelyra@uol.com.br

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