O HOMEM QUE SALVOU A TRANSPOSIÇÃO

Livro de Sarmento teve seu primeiro lançamento em 9 de agosto último na Bienal Internacional de São Paulo

Sem o título acima, o texto adiante publicado foi original e generosamente acolhido pelo escritor e professor Francisco Jácome Sarmento como prefácio do seu livro ‘Transposição do Rio São Francisco – Os bastidores da maior obra hídrica da América Latina’. A obra será lançada às 17h30 de hoje (13) na Academia Paraibana de Letras, em João Pessoa, durante o 56º Pôr do Sol Literário, evento promovido pela Confraria das Letras.

O homem que salvou a Transposição

Dentro ou fora da Academia, Francisco Jácome Sarmento é reconhecidamente uma das maiores autoridades do Brasil em recursos hídricos. E não é só pelos títulos acadêmicos que conquistou contínua e progressivamente, da Graduação em Engenharia Civil pela UFPB ao Doutorado na Universidade de Hannover, na Alemanha, passando por um Mestrado na UFCE, afora dezenas de outros cursos de aperfeiçoamento e especialização.

Na sala de aula da Universidade que o formou engenheiro e hoje o tem como Professor Doutor, nas pesquisas que fez e faz, nas orientações e bancas examinadoras da pós ou na produção científica que já realizou, publicando livros e dezenas de artigos em revistas especializadas da sua área, a razão de ser, estudar, planejar e agir de Sarmento tem sido uma só: prover água boa que tanto mata a sede como dá vida e meios de sobreviver a nordestinos em geral e paraibanos em particular.

Evidente que alguém assim não confinaria sua ciência no ambiente universitário. Movido por uma inquietude visceral, espécie de impulsão congênita que transborda do individual para o social, pessoas como Sarmento precisam sair do campus e ir a campo enfrentar e superar desafios com que a realidade testa a capacidade de resolução dos conhecimentos que gente como ele acumula.

Creio que devemos agradecer a esse benfazejo comixão, como chamaria minha saudosa avó Mãe Damiana, o fato de Sarmento ter aceito convites ou atendido a convocações para contribuir com gestões governamentais que ousaram, na Paraíba e no Brasil, acatar sua competência profissional e entregar a seu talante e talentos a formatação e gestão de obras que trouxeram garantia hídrica para milhões de pessoas.

A Transposição das águas do Rio São Francisco para o Nordeste Setentrional é, sem dúvida, o mais importante projeto de redistribuição de água e dessendetação da América Latina. Insinuada há dois séculos, a obra somente trocou papel e promessas por homens e máquinas trabalhando de verdade quando um nordestino de berço, secas e fomes assumiu a Presidência da República, em 2003.

Uma vez ‘instalado feito posseiro’ no Planalto, o pernambucano Lula encarregou seu vice-presidente, o mineiro José de Alencar, de fazer a transposição acontecer. Que aconteceu graças à presença e expertises de Sarmento como chefe da Assessoria Técnica de altíssimo nível da Vice-Presidência que elaborou e gradativamente melhorou as primeiras versões da obra, até sua adequação final. Adequando-a tanto à imensa precisão de 12 milhões de humanos quanto à determinação política de socorrê-los.

Mas Sarmento não foi chamado pelo igualmente saudoso Alencar para fazer aquele trabalho apenas e tão somente por ser portadora de um currículo de especialista. Ele o foi, também ou principalmente, por sua projeção nacional como secretário estadual de Recursos Hídricos que preparou bases e bacias da Paraíba para a Transposição. Muito antes da Transposição. Querem saber o quê e como ele fez? Vamos lá, então.

As principais obras hídricas do Estado projetadas e executadas como extensoras ou receptoras de águas são-franciscanas em solo paraibano têm a assinatura de Francisco Jácome Sarmento, que implementou o seu Plano das Águas durante o governo de José Maranhão (1999-2002).

O rol de obras desse Senhor das Águas começa pela adutora Coremas-Sabugi, que beneficiou, entre outros, os sedentes e carentes conterrâneos de meu pai, o Professor Vicente Nóbrega, natural de Santa Luzia. Obra integralmente projetada e executada na gestão de Sarmento na Secretaria Estadual de Recursos Hídricos.

Da mesma forma e com os mesmos propósitos, temos a barragem de Condado, em Conceição do Piancó, que conta com as melhores esperanças do povo da região para em futuro próximo receber água do Eixo Norte da Transposição.

O Plano das Águas também legou aos paraibanos os sistemas adutores do Cariri, do Congo e de Acauã, além da barragem do mesmo nome (a terceira maior da Paraíba, com 253 milhões de m3), receptora de água do Velho Chico e de onde hoje deriva a maior obra de condução de água do Estado, que vem a ser o canal Acauã-Araçagi.

Também conhecido como Vertente Litorânea, esse canal foi licitado no governo Maranhão III, em 2010, e teve seu projeto elaborado pelo Ministério da Integração para levar água até a barragem de Araçagi, a maior barragem do Brejo Paraibano, integralmente construída e concluída em 2002. Ou seja, na régua e compasso de Sarmento.

Deve ser creditada ainda ao gestor autor desta obra literária a construção integral da obra física do maior projeto público da Paraíba, as famosas Várzeas de Sousa, com seus 5 mil hectares irrigáveis. “Infelizmente, nunca aproveitados pelos governos subsequentes”, lamenta ele, sempre que conversa sobre o assunto com este protoprefaciador.

Lamentável, do mesmo modo, o destino bem parecido que tiveram os 1000 hectares do Projeto Piancó I, os 2000 hectares do Piancó II e os 500 do Piancó III, todos abandonados pelas gestões posteriores àquela da qual Sarmento participou, apesar de toda a infraestrutura ter sido concluída. Sem contar o que sucedeu com os 1000 hectares do Projeto de Irrigação Lagoa do Arroz, concluído em 2002.

Bom, nesse giro ligeiro por obras pensadas, projetadas, articuladas, licitadas ou executadas por Sarmento, nos períodos em que comandou a Secretaria Estadual de Recursos Hídricos, não há como deixar de mencionar a adutora Translitorânea, que atende a Grande João Pessoa. Inclusive por um detalhe…

Sob a coordenação de Sarmento, foram executados 89% daquela obra até dezembro de 2010, quando ele deixou o governo. Esse percentual foi alcançado em apenas um ano e nove meses de gestão. A Translitorânea seria inaugurada seis anos depois, contudo. E, segundo a propaganda oficial, como se o governo que assumiu em 2011 tivesse feito tudo, do começo ao fim.

Mas isso não é relevante nem novidade na Paraíba. É mencionado aqui apenas para situar quem acompanha e abomina a prática política, a mediocridade ou o personalismo de políticos que ascendem a cargos executivos ou representativos no Estado.

Para se ter uma ideia de como é, basta dizer que o que aconteceu de usurpação ou omissão de crédito a quem de fato realizou quase a totalidade da Translitorânea também se passou com a adutora São José (conhecida como 4ª Adutora de Campina Grande).

O importante, todavia, é dizer que essa obra foi concebida para permitir que as águas do São Francisco recepcionadas pelo açude Epitácio Pessoa (Boqueirão) sejam encaminhadas à Estação de Tratamento de Gravatá, em Queimadas, que serve a toda a Grande Campina e seus 19 municípios.

Mas tem uma obra da qual Sarmento não reivindica autoria, embora não tenha como fugir dela. Refiro-me ao que ele fez para salvar o Eixo Leste da Transposição da descontinuidade e da impossibilidade de botar água do Velho Chico no leito seco e assoreado do Rio Paraíba.

Foi exatamente o que houve, no meu entendimento e do que pude jornalisticamente registrar. Vale a pena, portanto, lembrar neste espaço e oportunidade. Especialmente para quem não conhece os fatos ou desconhece o feito. Desconhecer no sentido de desconsiderar. Por mesquinharia política, como sói acontecer.

Vou contar. Em 19 de março de 2017, enquanto caravanas de militantes lulistas ou de aliados temeristas festejavam, cada um a seu modo, a chegada das águas são-franciscanas a Monteiro, no Cariri, Sarmento visitava, coletava informações, fotografava e filmava as condições com que operavam – ou não – os canais e estações de bombeamento do Eixo Leste.

Fez aquilo para checar se era verdade o que lhe diziam e o que tanto temia. Não deu outra. Ao final, constatou o óbvio: foi feito todo um esforço político-midiático para inaugurar o Eixo Leste sem a obra dispor dos instrumentos e serviços que dariam efetividade, regularidade e força ao curso d’água para alcançar, por exemplo, o então quase esgotado açude de Boqueirão, que abastece Campina Grande e região.

Pois bem, menos de uma semana depois de Sarmento levar a público o que viu e ouviu no Eixo Leste e em meio a frustradas tentativas de desmenti-lo, Ministério da Integração, Governo do Estado e outros organismos interessados e envolvidos na Transposição ‘acordaram pra Jesus’.

Após o Alerta Sarmento, as ‘autoridades competentes’, como dizem de blague lá em Bananeiras, começaram a tomar as providências de restauração e correção das falhas apontadas. E somente o fizeram graças ao destemor de um homem em denunciar o malfeito. Um homem decisivo na formulação do Projeto São Francisco, agora no papel cidadão de salvador de uma obra magnífica, mas seriamente comprometida por desídia governamental.

Por essas e tantas outras, Francisco Jácome Sarmento é também leitura imperdível quando escreve sobre Transposição ou qualquer outro assunto relacionado a recursos hídricos. Ainda mais porque o seu texto é de fácil assimilação, mesmo quando aborda tecnicamente esse ou aquele tema.

A narrativa do autor é clara, objetiva, além de extremamente didática. Mas o maior mérito deste conteúdo é, sem dúvida, revelar o passado, desvelar o presente e descortinar o futuro da Transposição. Isso tudo com a verdade de quem deve se julgar no máximo um bom coadjuvante de uma história na qual somente alguns, por pura deslealdade intelectual, talvez não o reconheçam como protagonista.

  • Rubens Nóbrega
  • Março de 2018

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  1. Alberto Fernades Disse:

    O professor Sarmento é fera. Li o livro é posso afirmar: é a história definitiva da Transposição do Rio São Francisco. Vale a pena ler.

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