SOBRE PLACAS, CARTAZES E TABULETAS, por Arael Costa

Navegando, ou zapeando, como querem os ‘viciados’ no sistema, pela Internet, deparei-me com duas manifestações que julgo pertinentes a respeito dessa controvérsia que estamos vivendo em torno dessa ‘política’ de placas, cartazes e tabuletas que oficialismo paraibano implementou.

A primeira, tratando daquilo que o jornalista Nelson Rodrigues não hesitaria em classificar de “óbvio ululante” ao se deparar com a enxurrada cartazística que assola nossas plagas, dizendo aquilo que nossa lei maior já diz há muito, fazendo parecer uma distorção de princípio social universal e levando incautos a imaginar que, entre nós, só um segmento de nossa sociedade pode merecer tal atenção, não se lhe impondo nem mesmo o dever de reciprocidade.

Eis o que diz o colunista, que o subscreve, nas páginas do “Jornal da Besta Fubana”:

ESCREVER É CORTAR PALAVRAS

Aristeu Bezerra – Cultura popular

O homem chega à feira e lá encontra seu compadre arrumando os peixes num imenso tabuleiro de madeira. Cumprimentam-se. O feirante está contente com o sucesso do seu modesto comércio. Entrou no negócio há poucos meses e já pôde até comprar um quadro-negro para divulgar seu produto.

Na lousa, exposta atrás do balcão, o comerciante escreveu a seguinte mensagem em letras caprichadas: HOJE VENDO PEIXE FRESCO. Em seguida, perguntou ao amigo e compadre:

– Você acrescentaria mais alguma coisa?

O compadre releu o anúncio e, discretamente, elogiou a caligrafia. Entretanto, devido à insistência do cuidadoso e responsável comerciante de peixe, reforçando a indagação, resolveu questioná-lo:

– Você já notou que todo dia é sempre hoje? Acho dispensável a palavra hoje. Ela está sobrando…

O feirante aceitou a ponderação: apagou o advérbio. O anúncio ficou mais enxuto. VENDO PEIXE FRESCO.

– Se o amigo me permite, tornou o visitante, gostaria de saber se aqui nessa feira existe alguém dando peixe de graça. Que eu saiba, estamos numa feira. E feira é sinônimo de venda. Acho desnecessário colocar o verbo vender. Se a banca fosse minha, sinceramente, eu o apagaria.

O anúncio encurtou mais ainda: PEIXE FRESCO.

– Diga-me uma coisa: Por que apregoar que o peixe é fresco? O que traz o freguês a uma feira, no cais do porto, é a certeza de que todo peixe, aqui, é fresco. Não há no mundo uma feira livre que venda peixe congelado…

E lá se foi também o adjetivo. Ficou o anúncio reduzido a uma singela palavra: PEIXE.

Mas, por pouco tempo. O compadre pondera que não deixa de ser menosprezo à inteligência da clientela anunciar, em letras grandes e legíveis, que o produto ali exposto é peixe. Afinal, está na cara. Até mesmo um cego percebe, pelo cheiro, que o assunto, aqui, é pescado…

O substantivo foi apagado. O anúncio sumiu. O quadro-negro também. O feirante vendeu tudo. Não sobrou nem a sardinha do gato. E ainda aprendeu uma preciosa lição: escrever é cortar palavras.

A segunda, também recortada de artigo contendo um resumo biográfico do cultuado ator norte-americano – negro, Morgan Freeman, publicado nesse mesmo blog, cita uma frase que vem circulando nas muitas redes sociais eletrônicas como sendo de sua autoria, que bem pode encerrar todas essas discussões sobre o assunto. Diz:

  • O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece.

Adeus, cartazes…

  • Arael Costa é Professor aposentado da UFPB e jornalista

3 Comente SOBRE PLACAS, CARTAZES E TABULETAS, por Arael Costa

  1. RADAR Disse:

    Professor, assino em abaixo. Brilhante artigo.

  2. MARCO SIMPLÍCIO Disse:

    Pertinente e aprovado.

Comente

Não publicamos ofensas pessoais. O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *