O PRAGMATISMO PETISTA, por Flávio Lúcio Vieira

João Azevedo com Veneziano e Efraim, que o PT já não chamaria mais de ‘golpistas’ (Foto: Polêmica Paraíba)

Os principais dirigentes do PT paraibano vociferaram por meses que não aceitavam participar de alianças com partidos ou lideranças políticas “golpistas”, ou seja, que apoiaram o golpe parlamentar que depôs a presidenta Dilma em maio de 2016.

Posição justa e correta porque não se podia esperar que o PT esquecesse de uma hora para outra esse atentado cometido não apenas contra o partido, mas contra a democracia brasileira e suas instituições.

Como sempre, o PT cometeu o erro da generalização, que naquele momento apenas servia para justificar interesses circunstanciais e, em alguns casos, interesses pessoais.

O fato é que isso acabou por lançar o partido numa cruzada antigolpista sem que fossem feitas as devidas diferenciações de responsabilidades e o grau de envolvimento no processo que jogou o país na mais grave crise institucional e política de sua história em tempos democráticos, com desdobramentos econômicos não apenas conjunturais, mas de largo alcance histórico, como nós só perceberemos com mais clareza daqui a alguns anos.

Ou seja, a posição assumida pelo PT carecia dos ajustes necessários. Por exemplo. O alvo predileto dos petistas foi durante um bom tempo o ex-prefeito de Campina Grande, deputado federal e candidato ao Senado pelo PSB, Veneziano Vital do Rego.

Veneziano não foi figura de proa no impeachment de Dilma Rousseff e manteve em dúvida sua posição até o constrangido voto favorável ao afastamento da ex-presidente no dia da votação fatal na Câmara que entronizou Michel Temer no Palácio do Planalto.

Como eu mesmo lembrei em texto cujo título foi “Veneziano mudou. E isso é bom”, Veneziano tinha alterado sua posição porque, pouco tempo depois do impeachment, passou a votar alinhado a parlamentares e partidos que faziam oposição ao governo Temer, principalmente contra as reformas que a aliança PMDB-PSDB-DEM tentou aprovar no Congresso, algumas vitoriosas, como a que pôs fim à CLT.

Não teve acordo e recebi pesadas críticas de muitos petistas. As lideranças mais proeminentes deram entrevistas, escreveram notas, participaram de polêmicas em redes sociais para não deixar dúvidas a respeito de sua rejeição a qualquer aproximação com os tais “golpistas”.

Essa tempestade acabou por se transformar numa suave brisa e, de uma hora para outra, as nuvens pesadas e cinzentas que se mostravam no horizonte deram lugar a um céu azul e brilhante. Talvez até com um risonho sol a iluminar um futuro brilhante da esquerda paraibana, há anos parada no tempo enredada no mais solerte pragmatismo eleitoral.

De uma hora para outra esses mesmos petistas deixaram de fazer qualquer tipo de demarcação de campo e passaram a aceitar compor palanque com todo tipo de “golpista” não apenas no palanque do PSB, mas na chapa majoritária.

A começar por Efraim Moraes, que é hoje favoritíssimo a ocupar nada mais nada menos que o cargo de Vice-Governador na chapa de João Azevedo.

Ora, Efraim Moraes emprestou sua voz e seu mandato de Senador para a mais jocosa oposição ao governo Lula no Senado, eleito que foi na chapa de Cássio Cunha Lima, em 2002. O filho, Efraim FILHO, é atualmente o líder do DEM e foi figura de destaque nacional nos debates sobre o impeachment.

Registro para deixar claro. Não sou contra a participação do DEM na coligação, até porque o DEM figura em aliança com Ricardo Coutinho desde 2010, sendo um aliado de primeira hora do atual governador. Mas os dois Efrains e o DEM até agora assumiram uma posição marginal na aliança e no governo.

Para os falsos moralistas da política, gente com quem convivo na esquerda desde a adolescência, digo que há fato mais grave do que votar em Efraim Moraes como candidato a Vice-Governador, fato que desmoralizará todo discurso pregresso do PT, mas toda e qualquer contestação futura: caso João Azevedo seja eleito, Efraim Moraes será colocado na linha de sucessão do Governo do Estado, lição que deve servir para o próprio Ricardo Coutinho.

Não é possível que ninguém tenha aprendido com o erro cometido por Lula quando aceitou a indicação de Michel Temer como candidato a vice de Dilma Rousseff, em 2010, preterindo Eduardo Campos e Ciro Gomes. O pragmatismo de Lula subestimou a tradição golpista da direita brasileira, e o DEM é o mais legítimo herdeiro da ditadura civil-militar de 1964, por ser bisneto da velha Arena.

E deu no que deu. Porque com “golpista” não se deve brincar, como nos ensinam fatos recentes da nossa história que ainda ardem na consciência política e no lombo dos trabalhadores brasileiros.

E Efraim Moraes não é o único “golpista” que pode participar da chapa majoritária de João Azevedo. Tem ainda Daniela Ribeiro, irmã do parlamentar que assumiu a posição mais execrável no processo de impeachment de Dilma: Aguinaldo Ribeiro.

Mas isso é assunto para depois.

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  1. José Neto Disse:

    Que analise perfeita.

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