A ÁGUA NÃO TEM CULPA, por Arael Costa

(Foto: Arquivo)

Levado por circunstâncias outras, circulei na tarde da última quinta-feira (26) pela área ocupada pelo Farol e pela Estação Ciências, no pontal do Cabo Branco, onde a Prefeitura de João Pessoa executa projeto de drenagem de águas superficiais.

Ví, então, e espantei-me com o volume do movimento de terras e o tamanho dos dutos que serão utilizados nessa obra.

Nunca imaginei que as águas superficiais daquela área tivessem tal proporção, mesmo considerando a impermeabilização de considerável parte do terreno pela implantação dos equipamentos ali construídos e suas vias de acesso, admirando-me, consequentemente, da capacidade técnica do(s) autor(es) da medição das águas e o consequente cálculo do volume pluviométrico que levaram ao dimensionamento dessa obra.

Passada essa admiração, vi-me relembrando discussões e pronunciamentos mais antigos, notadamente os expendidos pelo geógrafo e professor Eduardo Galiza e pela bióloga Rita Mascarenhas, cujas conclusões e convicções sobre o problema são bem mais racionais – considero, e manifestas de conhecimento técnico.

Recordemos o pronunciamento do professor Galiza, que coloca a situação crítica daquela área como decorrência da intervenção humana desenfreada, submetendo-a uma carga que sua formação geológica não suporta, enquanto que a bióloga Rita complementa esse pensamento com a afirmação de que a infiltração mais grave ocorre na base da barreira, criando, assim, um lençol de areia instável e de pouca consistência, com a consequente perda de resistência do solo superficial ao peso dos equipamentos ali lançados e à vibração do crescente tráfego de veículos na região, seja em decorrência do pretendido apelo turístico desses equipamentos, seja por ser a única via de ligação entre o litoral urbano (praias de Manaíra, Tambaú e Cabo Branco e outras) às praias do sul.

A ameaça maior não é, portanto, a água superficial.

Vale lembrar que até o início das intervenções humanas bem lembradas pelo professor Galiza, esse mesmo volume de águas era absorvido pelo sistema natural de drenagem representado por sua vegetação nativa, com algumas ocorrências naturais de pequena monta.

Infelizmente, ponderadas as premissas levantadas por esses técnicos e considerando a triste realidade da situação, sou levado a lamentar a irresponsabilidade política que agravou a situação dessa área impondo-lhe uma carga superior à sua capacidade, que infelizmente não pode ser removida, pois não vislumbro um agente público com a necessária coragem cívica para tal.

Parece-me, então, que só me resta esperar que caia dos céus uma solução para esse problema, que, tenho certeza, não será mais uma obra ciclópica como a que se intenta.

2 Comente A ÁGUA NÃO TEM CULPA, por Arael Costa

  1. rfm Disse:

    Para mim, acho muito problemática esta situação, pois o mar esta devorando o litoral no MUNDO inteiro.

  2. Petrúcio Medeiros Disse:

    Já visitaram o entorno da Estação? Já viram os desmatamentos que ocorrem atualmente por lá? Como uma área criticamente ameaçada tem sua cobertura vegetal suprimida? Veja em frente ao antigo mirante ou ao lado… e quem autorizou? Muito bla bla bla e os reais problemas ainda continuam e ameaçam gravemente o local. Sugiro que visitem e fotografem a área para constatar o que falo sem interesses políticos, apenas ambientais.

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