AS CHANCES DE JOÃO AZEVEDO, por Flávio Lúcio Vieira

João Azevedo e Ricardo Coutinho (Foto: Zero83)

Um erro comum que, pelo visto, continua a se repetir quando o assunto é a projeção de cenários eleitorais na Paraíba, é achar que o quadro que hoje mostra uma vantagem confortável dos candidatos da oposição se manterá quando chegar a hora de o eleitor finalmente digitar seu voto na urna.

Um erro que José Maranhão cometeu em 2010 e que Cássio voltou a repetir quatro anos depois. Maranhão, porque achou que bastava a máquina política do PMDB e o peso da administração estadual para alcançar a vitória. Cássio, porque se deixou levar pelas próprias ambições, certamente incensadas por avaliações de aliados dentro e fora da imprensa que mostravam a vantagem numérica antes da campanha começar, mas que escondiam o principal: nem a liderança de Cássio era do tamanho que ele imaginava que fosse nem o tamanho exato que Ricardo Coutinho já tinha e mostrou durante a campanha.

Esse erro, ao que parece, nem Luciano Cartaxo nem Romero Rodrigues desejam repetir. E esse é o motivo pelo qual os dois evitaram até agora anunciar definitivamente suas candidaturas ao governo. Há dúvidas de que o cavalo que passa esteja mesmo selado.

Cartaxo e Romero têm toda razão de vacilarem antes de anunciarem a decisão dos dois de renunciar às duas mais cobiçadas prefeituras da Paraíba. Quatro meses, que é o tempo que separa a renúncia ao mandato de prefeito e as convenções partidárias, é uma eternidade em política e muita coisa pode acontecer nesse ínterim, de fatos novos a traições.

Mas, certamente, a maior dúvida é essa: o governo e o governador Ricardo Coutinho terão forças para alavancar a candidatura de João Azevedo e levá-la à vitória?

Em geral, a resposta dos muitos torcedores para essa dúvida acaba desaguando num silogismo: Ricardo Coutinho não transfere votos porque em 2012 e 2016 não conseguiu eleger o prefeito de João Pessoa (premissa 1); João Azevedo dependerá, em 2018, da transferência de voto de Ricardo Coutinho (premissa 2); logo, João Azevedo não tem chances.

A situação é bem mais complexa do que aparenta ser. Tanto em 2012 quanto em 2016, o eleitor pessoense votou pela continuidade ou não das administrações. Em 2012, pela continuidade da administração de Luciano Agra, que herdara a prefeitura de Ricardo Coutinho, e cujo candidato acabou sendo Luciano Cartaxo.

Se alguém se der ao trabalho de, num esforço retrospectivo, excluir o peso do apoio pessoal de Luciano Agra, de sua bem avaliada administração e da máquina municipal à candidatura de Cartaxo, em 2012, poderá afirmar que o atual prefeito de João Pessoa teria sido eleito? Tenho cá sérias dúvidas, mas tenho muita propensão a achar que não.

Lembra de um trecho do jingle da campanha (“Porque Luciano vota em Luciano, com dois Lucianos só vai melhorar)? Em 2012, Luciano Agra é que foi na verdade o centro da campanha de Cartaxo e não o então candidato petista, que antes de haver o rachar Agra com RC ostentava números inexpressivos nas pesquisas. Agra não “transferiu” votos para Luciano Cartaxo. Transferiu o prestígio de uma boa administração e o aval político de alguém que era considerado um bom administrador. E isso convenceu o eleitor.

Em 2016, a mesma coisa, com a diferença que Cartaxo tinha então uma administração para chamar de sua, aliado a uma conjuntura francamente favorável a ajuntamentos mais conservadores, como foi o que o então candidato à reeleição construiu ao romper com o PT para cair nos braços do PSD, numa campanha em que a esquerda se viu muito acuada e certamente isso foi um fator decisivo no desempenho da candidata do PSB, Cida Ramos.

Portanto, se o exemplo das eleições de 2012 e 2016 tem alguma relevância para projetar 2018 é para mostrar a força do discurso de continuidade de administrações bem avaliadas. E esse será, sem dúvida, o principal discurso que embalará a campanha do PSB − já que o governo atual ostenta números positivos de fazer inveja a qualquer mandatário em fim de segundo mandato − associado a uma poderosa máquina política cujo motor começa a se azeitar para impulsionar a candidatura de João Azevedo.

Os exemplos da Bahia e do Ceará

Há antecedentes eleitorais recentes que corroboram o que acabei de afirmar acima e envolvem situações muito semelhantes à da Paraíba de 2018. São os casos da Bahia e do Ceará. Eu poderia também incluir o caso de Pernambuco, mas alguém pode argumentar que a morte de Eduardo Campos criou uma tal comoção que acabou por interferir no resultado final. Apesar de que, penso eu, lá o resultado não teria sido muito diferente, talvez uma disputa um pouco mais acirrada do que foi.

Tanto na Bahia quanto no Ceará, os governadores Jacques Wagner e Cid Gomes encerravam mandatos de oito anos com administrações muito bem avaliadas. E não tinham nomes de projeção como candidatos, como é o caso de João Azevedo. A principal diferença é que, enquanto os candidatos de Jacques Wagner e Cid Gomes tinham um perfil mais político, João Azevedo é um técnico.

A opção de Wagner foi por Rui Costa, antigo companheiro de luta sindical no Polo Petroquímico de Camaçari, deputado federal e Secretário nas duas administrações do governador petista.

Em maio de 2014, segundo pesquisa Ibope, Rui Costa despontava com apenas 9%, enquanto seu principal adversário, o ex-governador Paulo Souto, liderava folgado com 42%. O desempenho de Rui Costa mantem-se estagnado até o começo da campanha, quando inicia uma impressionante curva ascendente (15% em agosto, 24% em setembro, 36% em outubro).

Abertas as urnas, Rui Costa se elege no 1º turno com 54% dos votos válidos, enquanto Paulo Souto chega aos 37,4 %. Veja.

No caso do Ceará, o quadro inicial era ainda complicado já que o atual governador, Camilo Santana (PT), só se tornou candidato do governador Cid Gomes no final de junho, quando um acordo entre PROS, então partido de Cid Gomes, e PT foi fechado. Camilo era deputado estadual e tinha ocupado duas Secretárias nos dois governos de Cid Gomes.

Na pesquisa Ibope de abril de 2014, Camilo Santana pontuou com apenas 5%, enquanto seu principal adversário, o atual presidente do Senado, Eunício Oliveira, chegava a 40%. Na pesquisa do mês seguinte, o nome de Camilo sequer apareceu, dando lugar ao nome de Domingo Filho, do PROS. Em 22 de julho, já em campanha, Camilo Santana já havia saltado para 14%. No início de setembro, o petista já alcançava os 34%, e chegou aos 38% no final do mês, índice que manteve até a última pesquisa, enquanto Eunício OIiveira mantinha-se à frente com 44%. Na urna, entretanto, Camilo Santana fica à frente de Eunício Oliveira com 47,81% contra 46,41% do peemedebista. No segundo turno, Santana amplia a vantagem e vence com 53,35%, enquanto Eunício Oliveira mantém os 46%. Confira.

Enfim, esses dois casos são exemplos muito expressivo da capacidade de governos bem avaliados alavancarem seus candidatos. E é nisso que aposta o governador Ricardo Coutinho.

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  1. Robson Disse:

    Só uma dúvida… O “Vieira” de Flávio Lúcio é o mesmo de Ricardo Vieira Coutinho? Ou é coincidência?

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