MINISTÉRIO NATIMORTO, por Arnaldo Costa

Chefes militares em audiência sobre segurança pública, no Senado Federal, em 24.11.2016 (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

O Brasil talvez esteja passando pelo pior período de desordem pública. O brasileiro já não aguenta mais ouvir, ver e até ser vítima de atos contra a sua vida, de seus entes queridos e do seu patrimônio.

Não vamos aqui enumerar causas dessa onda de tanta violência. Isso fica para um próximo momento.

O fato atual é o anúncio pelo Palácio do Planalto da possibilidade de criação de mais um ministério, o da Segurança Pública. Pergunta-se: por que só agora essas bisonhas autoridades federais estão se preocupando com essa ideia? Pessoalmente, tenho algumas respostas para tal, mas vamos nos restringir a apenas essas duas:

– Seria a oportunidade para a criação de muitos cargos comissionados a serem distribuídos aos “dignos” Senadores e Deputados Federais sedentos que estão para ocuparem mais espaços que possam distribuir aos seus asseclas. E a ocasião é altamente oportuna para o atual Presidente de plantão conseguir aprovação de suas propostas, como a famigerada Reforma Previdenciária.

– Esse ministério é um natimorto (**), ou seja, uma ideia que já nasce morta. Por dois motivos bem cristalinos: primeiro, pela sua desnecessidade ocasional. Estamos num final de governo totalmente desacreditado. É temerário criar um ministério com tantas expectativas num cenário contrário. Segundo, anunciaram a provável convocação de comandantes das Forças Armadas, além de outros nomes insignificantes para uma reunião inicial. O que sabem esses comandantes das FFAA sobre Segurança Pública? Eu respondo com toda convicção de minha alma: NADA!

Em vez desses nomes indevidos, por que não convocar os reais atores da ópera: profissionais em segurança pública? Por que não convocar os Comandantes das Polícias Militares, os Diretores Gerais das Polícias Civis, representantes de centros e núcleos de estudos sobre segurança pública e violência?

Esses é que são os verdadeiros nomes que deveriam ser ouvidos sobre a viabilidade ou não para a eventual criação de um Ministério da Segurança Pública.

Convocar pessoas erradas para estudos sobre a criação de um ministério duvidoso, a Presidência da República parece se esquecer de um velho, mas sempre atual, pensamento de Maquiavel: “O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta”.

A ideia da criação de um Ministério da Segurança Pública pode até ser boa, mas não é oportuna, apesar de todo clima de agitação social, de toda a desordem pública verificada nos últimos tempos. Há de considerar, sobretudo, o atual cenário nacional, onde a classe política passa por total descrédito, ao lado dos Poderes Executivo e Judiciário. Estamos vivendo um período seríssimo de crises nos aspectos político, ético e de gestão.

Essa pressa toda em agir, como a criação de um novo ministério, não seria também uma forma de “calar” os rumores populares? Creio que sim, pois a população menos esclarecida e carente de atuação governamental se sentiria menos abandonada. Assim, os governantes anunciam tal medida, mas continuam sem governabilidade.

Criar um ministério de expectativas tão sérias como o de segurança pública nesse clima desfavorável seria o mesmo que criar um bebê dentro de um lamaçal ou convivendo com os hábitos e valores de um bordel.

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(*) Professor de Administração Pública. Coronel RR da Polícia Militar. Pós-Graduado em Filosofia.

(**) Natimorto: denominação dada ao feto que morreu no útero ou durante o parto, depois da 20ª semana de gravidez. Ou bebê que não tiver batimentos cardíacos ao nascer.

3 Comente MINISTÉRIO NATIMORTO, por Arnaldo Costa

  1. Arnaldo Silva Costa Disse:

    Fazendo um adendo ao artigo. Lembram-se da criação do Ministério da Pesca? Após essa criação, o brasileiro passou a comer mais peixes? Os pescadores ganharam mais facilidades para desenvolverem suas atividades? Nada disso aconteceu. A criação de um ministério de uma atividade não garante que vá desenvolver essa mesma atividade. Para desenvolver uma atividade pública são exigidas como fundamentos: uma política pública bem elaborada, convocação de pessoas comprometidas com a atividade, orçamento significativo e atender às expectativas da população.
    Repito: a criação desse ministério pode até ser exigida, mas é inoportuna. O atual quadro político, moral e ético não favorece a criação de um ministério que envolve grande expectativa.
    Por que não convocar profissionais da área da segurança pública, como Oficiais das Polícias Militares e Delegados das Polícias Civis, além de representantes de Centros e Núcleos de Estudos sobre Segurança Pública?

  2. condor Disse:

    Muito contraditório professor.
    E a “estória” se repete. Se critica quando nada é feito e depois se critica, por que alguma coisa está sendo feita. O professor esqueceu de apresentar as soluções que entende necessárias ao complexo problema que se apresenta. Criticar é muito fácil, basta ter “titica” na cabeça. Agora, cadê a sugestão(!?); cadê a solução(!?).
    A sociedade quer Paz e Segurança. Chega de balas perdidas, crianças sendo mortas ainda no ventre das mães. Crianças sendo mortas dentro das escolas. A ordem pública tem que ser restabelecida, ainda que custe vidas.
    Se queremos Paz, que nos preparemos para a Guerra !

  3. condor Disse:

    Coronel, uma pergunta que não quer calar: por qual motivo o Senhor não coloca suas idéias no papel e como cidadão e portador de tanta experiência , não encaminha aos órgãos de segurança deste nosso combalido e abandonado Estado da Paraíba !!??? que atitude o Senhor tomou, quando estava na ativa !?
    O Senhor chegar ao disparate de afirmar “…O atual quadro político, moral e ético não favorece a criação de um ministério que envolve grande expectativa.”
    Peraí, peraí, nos poupe coronel !!!
    Note, este blog não comporta tantos absurdos, juntos e misturados, ditos por um Oficial reformado da PM.

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