Carta de um velho amigo

(Fotomontagem meramente ilustrativa/TV Bambuí)

Querido Rubão,

Como está a saúde? E a família? Deus abençoe. Escrevo para lhe pedir um favor, se possível. Se você tiver algum amigo com algum prestígio no governo, peça a ele pra me requisitar de volta, por favor. Vou explicar a minha situação.

Seguinte, quando trabalhava na Secretaria, dirigindo pro adjunto, era maneiro. Eu prestava meu serviço direitinho, mas podia levar o carro pra dormir em casa, sob a latadinha que montei pr’agente fazer churrasco. Lembra?

Era beleza. De manhã cedo, podia levar as crianças pra escola no carro e, vez em quando, dar um rolé com a patroa. Sem problema. O carro era alugado e quase ninguém percebia. A não ser por aquela placa de BH.

Da mesma forma, quando meu chefe precisava viajar com a família, fazer feira, comprar o pão, deixar e pegar a madame no salão de beleza ou na academia, buscar o filho mais velho pra balada… Sem problema. Ninguém perturbava.

Como se não bastasse, eu ainda tinha celular da repartição pra me comunicar com ele e vez por outra ele me autorizava tirar de dez a vinte litros do tanque do carro para botar no dele e um pouquinho na moto que comprei quando ainda estava na Prefeitura.

Pois bem, amigão, isso tudo acabou depois que fui chamado para trabalhar na Justiça. O carro que eu dirijo é bem melhor, mais confortável, mas é uma dureza. Só pode ser usado pro homem. Até por que o bicho é preto (o carro), tem placa de bronze e não posso levar pra casa.

Mesmo que pudesse, duvido que ele deixasse. Porque a gente ganha mais uma coisinha, é verdade, mas trabalha muito mais. Só esperando o doutor almoçar passo no mínimo duas horas dentro do carro. E não interessa se estou com fome ou não, se preciso ir no banheiro… Fico lá, o tempo todo, à disposição.

Ainda bem que fico de ar condicionado ligado, direto, e ouvindo rádio. Consome uma gasolina amuada assim, mas você sabe como é… Tudo por conta da muda, né? Os caras tão nem aí! Gastam com força.

Outro dia perguntei a ele se podia levar meu caçula prum torneio de futsal em Mamanguape, aqui pertinho. O garoto é bom de bola e joga no time da escola, que foi convidada a participar de uma competição por lá entre colégios da rede pública. Sabe o que o chefe me disse?

– Tá doido, Zé? Se alguém pega, fotografa o carro e bota nas redes sociais, vão dizer que estou usando o carro oficial para coisa particular. Não, de jeito nenhum.

Confesso a você, amigo velho, que por essas e tantas outras estou cansado. Como se fosse pouco, a mulher do homem me aluga quase o dia todo pra tudo que você possa imaginar. Levo ela pro médico, cabeleireiro, manicure, encontrar as amigas, buscar a filha mais velha na faculdade…

E ainda vou pra fila de banco e lotérica pagar algumas contas deles! Vê se pode? Pode, pode sim. Os caras podem tudo e um pouco mais. E o que pode fazer um pobre lascado feito eu, motorista no serviço público? Fazer tudo que mandam, engolindo caladinho da Silva, lógico.

Mas, como disse, não tenho mais paciência nem disposição pra continuar desse jeito. Prefiro voltar pro Estado, ganhar um pouco menos, mas, em compensação, vou ter mais tempo pra fazer minhas coisas.

Além do mais, este ano é de eleição e eu soube que o pessoal do governo está convocando gente pra trabalhar na campanha. Dá um dinheirinho bom. Soube também que vão pegar um monte de carro zero na locadora que é pra rodar pelo interior sem susto.

E aí, amigão, dá pra quebrar essa pra mim?

Um abraço do seu amigo de fé, irmão, camarada

Zé Chapa-Branca

2 Comente Carta de um velho amigo

  1. Marinho Disse:

    E a realidade, ……, Parabéns ao amigo chapa branca, pela decisão tomada.
    O judiciário “””chupa cabra”””leva vantagem em tudo.
    Os bestas do executivo arrecadam, e os sabidos do judiciário esbanjam mordomias.
    E o Brasil de hoje!!!

    • Arnaldo Costa Disse:

      A história do “chapa branca” revela um pouco o que acontece de abusos com o dinheiro público, ou o dinheiro do povo. Sabe-se que o nosso Poder Judiciário é lento e ineficiente. Mas pra usar as mordomias, o pessoal é rápido e “eficiente”. Pra ver os abusos com o uso de carros oficiais, basta a pessoa acompanhar um desses carros pela cidade…
      E toda essa farra sendo patrocinada com o nosso dinheiro, o que me faz ficar revoltado quando tenho que pagar parcelas do Imposto de renda. E o Governo ainda chama proventos de renda…
      Mas esses abusos também acontecem nos outros Poderes. Isso tudo porque persiste no Brasil a cultura do carro chapa branca. Os Governos não tem coragem para moralizar o uso de carros oficiais. Mesmo porque os próprios mandatários dos Poderes, via de regra, são destituídos de padrões morais e éticos.

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