LACTOSE

(Foto: Ilustração/Manual da Saúde)

Coitado do Ataíde. Resolveu seguir a receita de Gosto Ruim para ‘afrouxar o intestino’ e ganhou uma bruta dor abdominal. Ainda por cima acompanhada de barriga inchada, incontrolável diarreia e uma flatulência horrível.

Tudo por conta do lactobacilo que lhe foi prescrito pelo amigo da onça. Comprou dois fardos do leitinho azedo no supermercado perto de casa e resolveu ingerir dez bisnagas de uma vez.

“Para fazer efeito mais depressa”, explicou ao médico que o atendeu nas carreiras na única urgência disponível do plano de saúde, onde a proporção entre médico e pacientes chega a um para 50 ou mais.

Mesmo assim o atendimento foi ligeiro e o tratamento, eficiente. Tiro pelo que me disse dias depois, atribuindo a cura a um diagnóstico rápido de distúrbio gastrointestinal provocado por ‘intolerância à lactose’ ou algo parecido.

Segundo Pedro, o filho mais velho que o socorreu, foram mais de seis horas de leito, três soros e doses alternadas de buscopan, luftal e plasil. Na veia. E por muito pouco a urgência não se desdobrou em internamento.

“As enzimas preocuparam o Doutor”, contou-me o rapaz, referindo-se ao resultado de um exame de sangue feito no próprio hospital. “Mas aí o Doutor consultou um colega cardiologista e ele liberou painho”, disse.

Alta condicionada a cuidados extras com alimentação, principalmente leite e derivados. Recomendação com a qual se comprometeu o doente, que só esperou chegar no carro do menino para sacar o celular. Queria falar imediatamente com quem julgava responsável por um bocado de quase um dia inteiro de aperreio.

“Ei, fui na tua de tomar aqueles bichinhos e escapei por pouco, visse?”, queixou-se, sem sequer dizer alô.

“De que bichinhos você está falando, companheiro?”, perguntou Gosto Ruim do outro lado da linha.

“Aqueles, com o tal do lactobacilo que você disse que era uma beleza pra aliviar prisão de ventre. Comprei um bocado e tomei um monte. Não deu dez minutos, minha barriga começou a inchar, a doer que só a bexiga e, como se fosse pouco, bateu-me uma disenteria braba da gota serena”, relatou.

“Ah, amigo, então, pelo visto, os bichinhos resolveram o teu problema, não foi?”, rebateu o de lá, deixando o de cá indeciso entre mandar o companheiro ‘tomar naquele canto’ ou simplesmente desligar e se intrigar dele por um bom tempo. Até a raiva passar, pelo menos.

Não tanto pelo que passou no hospital; muito mais, pela mania do pariceiro de querer fazer piada de mau gosto com tudo no mundo, inclusive doença dos outros.

Mas a amizade dos dois é das antigas, uma fortaleza de afetos consolidados. Não é de se abalar por qualquer besteira. Vem da infância nas ruas, sítios e oitões de Esperança, onde nasceram e conviveram até a mudança para a Capital do Estado. Aqui, alistaram-se juntos para servir ao Exército Brasileiro. Fizeram uma temporada no quartel do 15º Regimento de Infantaria, o 15-RI de João Pessoa.

De qualquer sorte ou azar, o nó nas tripas de Ataíde quase dava um nó na camaradagem. Mesmo sem Gosto Ruim ter exatamente culpa pelo ocorrido, convenhamos. Afinal, como ele mesmo diria uma semana mais tarde ao amigo… “Não sabia que você tinha estômago fraco nem essas frescuras de lactose. De agora em diante, sair com você para beber ou comer só com autorização médica”.

Foi esse o comentário – desnecessário, diga-se – que Gosto Ruim fez ao receber convite para visitarem a terrinha no último Finados.

É bem verdade que Ataíde precisava reverenciar alguns parentes enterrados no cemitério de Esperança, mas a intenção primeira era arranjar um modo de voltar às boas com o amigo.

Por telefone, conversa vai, conversa vem, terminaram se acertando e acertaram a viagem. Foram só os dois, bem cedo da manhã seguinte. Único casado da dupla (o outro está solteiro há mais de cinco anos), Gosto informou que sua mulher amanhecera indisposta.

“Só espero que ela não tenha tomado lactobacilo”, falou Ataíde, de um jeito e no tom de quem aproveita a chance para dar troco.

Gosto Ruim não passou recibo. Limitou-se a afirmar que a sua amada não tinha problemas gástricos nem era alérgica a qualquer tipo de leite.

“Aliás, somos um casal sadio e saudável, pode apostar”, acrescentou, arrematando: “Mas aceito seu convite para irmos a Esperança, inclusive porque vou ficar preocupado se você viajar sozinho e comer alguma coisa errada por aí”.

Não pensem que a troca de farpas persistiu na viagem. A única troca no percurso foi de piadas novas do repertório de cada um. Chegaram a Esperança, via Campina Grande, quase duras horas após o embarque.

Foram direto para a lanchonete Gostosa, no mercado público da cidade. Morto de fome, pois não tomara café da manhã em casa ou fora, antes da partida, assim que se abancou de uma mesa Gosto fez pedido e rapidinho foi atendido.

Não demorou cinco minutos e o homem já devorava com muito gosto um prato fundo de cuscuz com picado de bode. Cheio pela boca, derramando pelas beiradas. Acompanhando, um copão de suco de caju tirado na hora da máquina.

Por sua vez, indeciso por natureza, Ataíde chamou um garoto que fazia as vezes de garçom e requisitou um cardápio. “Cardápio? Tem isso aqui não, Doutor”, informou o menino. “Então faz favor de me chamar o dono”.

O dono foi chamado e veio até a mesa dos fregueses. Foi uma festa. O cara era ninguém menos que o velho Remil de guerra. Os três se conheciam desde criança. Estudaram juntos no Grupo Escolar Irineu Jóffily.

– E aí, cumpade? Tás gordo que só a molesta! Comendo amarrado, é? Vai querer o quê, um cuscuz com leite? – ofereceu o bodegueiro.

– Só se você tiver leite sem lactose…

– Ih, rapaz, tem não. Sei nem o que é isso… Que tal um cuscuz com ovo?

– Pode ser, pode ser. Mas ovo cozido, que mexido na manteiga ou no óleo dá pra mim não.

– Vôte! E é assim, é? E pra beber, vai um café?

– Só se for descafeinado…

– Agora deu… Vou mandar fazer um chá pra tu. Ou vai de suco?

– Traz os dois, mas o suco só se for da fruta. Popa, nem pensar. E manda uns biscoitinhos.

– Biscoito? Quer um pãozinho não? Uma bolachinha?

– Não, amigo. Só posso biscoito. E sem glúten, por favor.

– Com’é que é? Glúten? Vixe Maria! Foi que houve com o nosso Ataíde aqui, hem, cumpade Gosto?

Aparentemente, Gosto não escutava a conversa, mas voltou os olhos para o dono da lanchonete, tirou da boca o palito que prendia no canto esquerdo dos lábios e na maior calma deu a sua opinião:

– Sei não, cumpade Remil. Ele ficou assim depois de uma caganeira que teve semana passada. Como diz um gazo amigo nosso, “eu não quero acreditar, mas isso é coisa de boiola”.

3 Comente LACTOSE

  1. Neroaldo Pontes Disse:

    Humor sadio, mesmo falando de doenças.
    E de qualidade literária, o que não é surpresa.

  2. Paulo Disse:

    Boa redação contando passagens popular!

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