CARTEIRADA

(Foto/Ilustração: Mega Curioso)

Tem aquela clássica do aeroporto. Voo cancelado, passageiros irados cercando e xingando uma funcionária da companhia aérea. Todos tentando a todo custo um embarque imediato. No meio da zoada, uma voz mais alta (não um valor) se alevanta…


– Moça, eu exijo entrar no próximo avião, pois tenho audiência muito importante em Brasília.

– Mas, meu senhor, fique na fila, por favor, pois estamos atendendo, primeiro, aos prioritários.

– A senhora sabe quem eu sou?

– Não, senhor, não sei. Mas vou tentar descobrir agora – diz a jovem.

Ato contínuo, ela sobe numa cadeira, ergue e balança os braços para chamar a atenção de quem lhe pressionava e pede silêncio à turba enfurecida à sua volta. No que é prontamente atendida. Aí, apontando com o indicador, de cima pra baixo…

– Gente, por favor, alguém aqui conhece esse cidadão que está na minha frente? Tem algum parente dele aí entre vocês? Peço, por favor, que se houver familiar ou amigo que tome conta dele, pois ele, coitado, está completamente perdido, pois sequer sabe dizer quem é.

•••

Recém designado para o posto da Manzuá da BR 101 Norte, saída para Natal, Ginaldo (vamos chamá-lo assim), policial rodoviário federal, era um Caxias redivivo. Logo na estreia, percebeu que o colega com quem fazia dupla não parou um motorista que passou por eles exibindo vistosa carteira que segurava com a mão esquerda pelo lado de fora, no canto superior do para-brisa dianteiro.

De onde estavam, na beira da pista, os ‘patrulheiros’, como ainda eram chamados na época, viram perfeitamente duas coisas: o brasão da República estampado na capa do documento e a empáfia do dono da carteira. Ginaldo perguntou ao colega quem era aquela ‘otoridade’.

“O cara é juiz classista. Passa aqui todo dia, pois trabalha em Mamanguape. Já o abordei uma vez e ele me mostrou as credenciais”, informou o companheiro de trabalho.

“E a carteira de motorista? E os documentos do carro?”, quis saber o nosso herói.

“Ah, camarada, o cara é juiz. Entendeu não?”. Ginaldo resmungou um “entendi, entendi perfeitamente”, como quem dava o assunto por encerrado, mas por dentro abria a contagem regressiva para o plantão do dia seguinte.

Não deu outra na sua segunda manhã de Manzuá. Quando viu o carro do juiz em marcha reduzida, ultrapassando placidamente a barreira da PM e se aproximando da Federal, que ficava logo adiante, foi até o meio da faixa de asfalto e indicou o acostamento à excelência motorizada.

Foi obedecido no ato, mas ao se aproximar da janela do motorista encontrou o magistrado segurando a famosa carteira em posição de entrega do documento.

– Habilitação e documentos do carro! – ordenou Ginaldo.

– Olhe aqui, Seu Guarda, estou com pressa. Tenho uma audiência dentro de meia hora e…

– Habilitação e documentos do carro! – repetiu o policial, subindo o tom.

– O senhor parece que não entendeu. Eu sou juiz…

– Abra a porta devagar e desça, cidadão, para que eu possa revistar o carro.

Vendo que não tinha como fugir à ordem e à revista, Doutor Juiz obedeceu e apenas observou, de cara amarrada, Ginaldo abrir o porta-luvas e retirar lá de dentro o que parecia documentação do veículo do motorista ou do veículo. Notou em seguida que o policial leu detidamente cada pedaço de papel ou formulário encontrado.

De fato, Ginaldo achou as preciosidades de que já suspeitava. A carteira de motorista de Sua Excelência, vencida há mais de dois anos. Presumivelmente o tempo de mandato dele como juiz classista de uma Junta do Trabalho em Mamanguape. Pior o licenciamento do carro… Cinco anos de atraso!

– Seu carro e os documentos vão ficar retidos aqui, Doutor. Se quiser prosseguir viagem, pegue uma carona, um táxi, um ônibus ou, então, chame alguém de sua confiança para vir lhe buscar. Enquanto isso, vou lavrar os autos de infração e lhe entregar as vias para que o senhor possa providenciar o pagamento.

– Como é mesmo seu nome, Seu Guarda?

– É esse que o senhor está vendo no bolso da minha camisa. Mas o nome completo é Ginaldo dos Santos Veloso. Se quiser minha matrícula, posso lhe dar também.

– Vou lhe processar por abuso de autoridade, fique sabendo. O senhor está obstruindo o trabalho da Justiça, viu?

– Fique à vontade, Doutor, fique inteiramente à vontade.

Não rolou processo. O juiz ‘caiu na real’ lá mesmo na Manzuá. Comunicou-se com alguém do fórum através do rádio de uma viatura PM e mandou que algum funcionário da Junta viesse resgatá-lo. Completou a viagem.

Tão logo desembarcou em Mamanguape, contatou a esposa por telefone. Madame estava em casa, na Capital. Conforme instruções do marido, deveria se deslocar até a barreira policial na estrada pra Natal e recuperar o carro apreendido. Em menos de meia hora…

– Vim buscar o carro do meu marido – anunciou ao ‘guarda’ que deveria ser Ginaldo, a julgar pelos ‘traços’ que lhe foram passados. O policial ensaiou dizer não, mas seu colega interveio, chamou-o a um canto distante da mulher e apelou:

– Vamos liberar o carro, cara. Se ela estiver com a habilitação em ordem, não tem porque reter esse carro aqui. O carro deve ter outra utilidade para a família. Além do mais, você já multou o que tinha que multar – argumentou o outro ‘patrulheiro’.

Aparentemente convencido, Ginaldo olhou a habilitação de madame e entregou as chaves à mulher. Que entrou no carro, ligou, percorreu cerca de cem metros e deu a volta de 180 graus no meio da rodovia. Retornaria a João Pessoa, mas foi interrompida pelo mesmo policial que a atendera segundos atrás.

Postado no meio da pista sem movimento àquela hora, o ‘guarda’ fez a gesticulação indicativa de que ela deveria estacionar no acostamento.

– Que foi dessa vez, Seu Guarda?

– Dê cá sua habilitação de novo, minha senhora. Vou ter que multá-la por dirigir um carro com licenciamento atrasado.

  • Publicada originalmente no Jornal da Paraíba em 27.3.2016

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  1. Jair Cesar Miranda Coelho Disse:

    Muito bom. Um abraço meu bom jornalista e amigo Rubens Nobrega,

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