Acusado e ‘aposentado’ no Unipê por suposta homofobia, professor se defende e pede desculpas

Acusado de homofobia e misoginia em sala de aula, acusações que teriam levado ao seu desligamento do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê), o professor Alírio Batista defendeu-se publicamente ontem (29) em sua página de Facebook. No longo texto em que também admite o fim de sua carreira acadêmica, ele também pede desculpas àqueles que eventualmente tenha ofendido por expressões ou conceitos que, garante, jamais foram propositais ou manifestação de algum preconceito.

O caso veio a público anteontem (28) através de denúncia, também publicada no Facebook, pelo aluno Diógenes Dantas, que deixa claro logo no início de sua postagem ter sido impelido a tanto em razão de o Unipê, até então, ter ignorado “testemunhos, as fotos e as gravações que integraram as mais de 10 denúncias de assédio e homofobia perpetradas em sala de aula pelo docente Alírio Batista, titular da cadeira de Medicina Legal nas turmas C e D”.

Segundo o estudantes, entre outras palavras e comportamentos inadequados, o professor Alírio, que também e médico e advogado, recomendava às alunas vestirem roupas curtas e sentarem nas cadeiras da frente, “facilitando que ele olhasse quando elas cruzarem as pernas”. Além disso, acrescenta Diógenes, em suas aulas o docente, que tem 80 anos de idade e 52 de cátedra, chegou a classificar de “aberração” a homossexualidade e, por extensão, todas as pessoas de orientação sexual que se enquadrem na sigla LGBT.

Por sua vez, o Unipê também divulgou nota na qual informa ter tomado conhecimento dos fatos denunciados em 26 de abril deste ano, através de sua Ouvidoria, e abriu um procedimento de apuração interna que, assegura, respeitou o direito à ampla defesa do professor Alírio. Ao final do processo, contudo, o Centro Universitário tomou a decisão de, aparentemente, aposentar o docente, pois não se refere a ele como demitido, informando apenas que ele já não pertence mais ao “quadro ativo” da instituição.

O que publicou o aluno

No mês do orgulho LGBT, o parabéns especial vai para o Unipê Centro Universitário, que ignorou os testemunhos, as fotos e as gravações que integraram as mais de 10 denúncias de assédio e homofobia perpetradas em sala de aula pelo docente Alírio Batista, titular da cadeira de Medicina Legal nas turmas C e D.

Não há nenhum mérito nessa postagem, muito pelo contrário, me entristece a necessidade de expor a negligência da Universidade que amo – e que vem sendo responsável por minha formação jurídica, frente aos absurdos narrados. Escrevo com lágrimas nos olhos, mas com o espírito aliviado em saber que estou contribuindo para que uma situação que se repete todos os anos seja vista e discutida por toda a sociedade – e não mais acobertada por aqueles que coadunam ativa e passivamente com os fatos ora narrados.

Por certo, antes de iniciar o período, a minha turma já fora alertada pelos alunos veteranos do comportamento “peculiar” do Dr. Alírio Batista, o que inclusive motivou algumas alunas a buscarem autorização especial para cursar essa disciplina individualmente no turno da noite, antes mesmo das aulas começarem. Repito: duas alunas aumentaram a sua carga horária no semestre mais carregado do curso e se submeteram a frequentar a universidade duas vezes por semana, além do seu horário regular, apenas para cursarem essa disciplina, percebem quão grave é a questão?

Poderia gastar os meus dedos tratando das demais problemáticas que envolvem o contundente aporte de um posicionamento religioso em sala de aula, diametralmente oposto ao sugestivo aconselhamento do docente para “que as alunas venham com roupas curtas e sentem nas cadeiras da frente, facilitando que ele olhasse quando elas cruzarem as pernas” (alegação que deveria ter sido apurada com mais afinco pelos órgão competentes da Universidade assim que foram denunciados à Ouvidoria, em meados de abril), mas, mantendo-me a temática que envolve esse mês,trago à tona o episódio de uma “aula” em que o referido professor reduziu a dignidade de integrantes do grupo LGBTQ+ ao adjetivo “aberração”.

Não estou exagerando. O professor Alírio, ao tratar de “perversões sexuais” em sua disciplina, classificou a homossexualidade (insistentemente gravada como homossexualismo, sufixo que remete à doença) como aberração, repetindo isso por diversas vezes ao longo de sua apresentação. No final da aula, pedi a devida licença para um adendo, informando respeitosamente que a aula ministrada estava atrasada em pelo menos 20 anos, uma vez que a homossexualidade (termo correto) não era uma considerada doença há muito tempo, sendo inclusive retirada da lista de doenças da OMS. Em resposta, o docente deixou claro que continuaria a propagar o seu posicionamento, uma vez que a matéria, segundo ele, sustentava ser uma aberração.

Em tréplica, solicitei ao professor que informasse em sala que esse seria um conceito pessoal, e não da medicina legal, situação em que tive a minha palavra cassada, como comprovava o áudio encaminhado para a ouvidoria, e que jamais recebi resposta.

Confesso que me faltam palavras para descrever o que senti ao enfrentar o peso do julgo dos outros alunos, que, abismados com o ocorrido, me dirigiam olhares aflitos, como se esperassem uma atitude da minha parte frente à sumaria redução da minha condição humana para uma mera “aberração”. Eu não sabia o que fazer, e a única atitude que enxerguei foi me retirar da sala de aula. Na próxima aula, meus colegas de turma comentaram que o professor, em sala, endossou ainda a discussão de que a origem de tal “doença” seria “safadeza”(sic), mas que “não gostaria de estender a conversa, “pois essa gente era muito agressiva”.

Não confunda “agressividade” com “coragem”, professor. O sr. pode ter silenciado a minha voz, como a de muitos alunos que vieram antes de mim, as denúncias apresentadas à Instituição podem ter sido completamente negligenciadas, mas o grito de quem luta diariamente contra a epidemia de violência que posiciona o Brasil como o país mais perigoso do mundo para grupos LGBTQ+ não vai cessar enquanto não nos for garantida a dignidade que nos pertence.

Aberração, “caro mestre”, é esconder o seu preconceito no manto da liberdade de cátedra.

O que publicou o professor

Tomei conhecimento, no dia de hoje, com imensa tristeza e perplexidade, do conteúdo de mensagens postadas sobre mim no Facebook e, em homenagem a minha história como professor, como médico e advogado, como pai e avô, sinto-me compelido a uma palavra que seja, destinada a todos que me conhecem.

Inicialmente, lamento que, em uma das últimas turmas de minha longa trajetória acadêmica – hoje em seu epílogo (sinto que é tempo de deixar a cátedra), mas iniciada ainda nos idos de 1967 – uma mera classificação doutrinária, trazida no contexto histórico e ilustrativo de um tema ministrado em Medicina Legal, tenha alcançado tamanha repercussão em mídias sociais, universo tão estranho para mim, uma pessoa com mais de 80 anos, 50 dos quais ininterruptamente dedicados ao ensino superior.

É possível que esteja velho demais para isso. Quando fatos que deveriam ser corriqueiros em uma sala de aula repercutem de forma extremada na internet, fomentados por pessoas que sequer presenciaram a cena, ou mesmo conhecem minha história como professor, vejo uma oportunidade para refletir.

Não obstante o ocorrido, sempre acreditei que a academia fosse o palco adequado para a encenação de teorias e, até mesmo, a prática de teses sobre o que se pensa a respeito de tudo; inclusive, acerca de assuntos polêmicos, que envolvam preconceitos, ordinariamente arraigados nos confins da mente humana, não raramente fundados na convicção religiosa e moral que os outros trazem consigo, diante de considerações científicas que devem ser levantadas corriqueiramente.

Abordar tais aspectos, com profissionalismo e retidão, sempre foi meu Norte, a referência que busquei ter em todas das mais de 300 turmas em que tive a honra de lecionar, desde as da Universidade Federal da Paraíba, tanto no curso de Medicina quanto no de Direito, bem como as do Centro Universitário de João Pessoa, passando pelas da Escola de Enfermagem Santa Emília de Rodat, da Escola Superior do Ministério Público, da Academia de Polícia Civil, entre outras, sem nem mencionar as já muito distantes do Colégio Pio XI em Campina Grande.

Sobre a polêmica em questão e sua repercussão na internet, tenho dois alentos: o primeiro, de saber que a pessoa que se afirmou ofendida pelo episódio em sala de aula deixou claro em seu texto que jamais manifestei qualquer opinião de cunho pessoal sobre o tema, que viesse a justificar alguns adjetivos criados por terceiros, a exemplo de “homofóbico”. Não tenho como descrever o pesar que senti com esse desdobramento, tão automático nos dias de hoje em redes sociais.

Concordando ou não com a classificação apresentada em aula (a opinião pessoal do professor é o que menos importa em medicina), mas, para o propósito desse pequeno instrumento de resposta, devo registrar que, naquele dia, ponderei aos alunos que se tratava de uma consideração sustentada por alguém anteriormente (a par de sua atualidade científica ou da eventual necessidade de revisão). Afinal, verdades matemáticas não existem nas ciências humanas e sociais, a despeito de se querer cobrar tal certeza em quase tudo que se propõe a ensinar e aprender em um curso de Direito. Considerando a natureza multicultural da plateia, o professor convive com a perspectiva de jamais atingir a unanimidade, vivendo o papel de protagonista e antagonista a todo momento, vulnerável a toda sorte de mal-entendidos.

O segundo alento é o de que os demais pontos do “desabafo” feito pelo jovem na sua página de relacionamento não sejam provenientes de sua percepção ou vivência, mas do que veteranos teriam falado a discentes mais novos. Não acredito que esses comentários tenham sido feitos com maldade. Antes, atribuo-os às picardias estudantis tradicionalmente transmitidas nos corredores das instituições de ensino, aumentadas ano a ano. Contra lendas urbanas – ou melhor, “lendas acadêmicas” –, contadas e modificadas pelo narrador seguinte, não há muito o que fazer. Restava-me, quanto possível, levar com naturalidade e irreverência as situações “peculiares” surgidas com as dúvidas apresentadas por alunos, normalmente motivadas pela (por assim dizer) estranheza de temas não afetos à grade curricular essencialmente jurídica do curso, a exemplo de anatomia humana, sexologia, tanatologia, psicologia forense etc.

Por outro lado, no afã de minimizar os efeitos das investidas que tenho injustamente sofrido desde ontem, registro minhas sinceras desculpas aos que assistiram minhas aulas e que, de qualquer forma, tenham-se ofendido em algum instante das minhas incontáveis horas de atividades acadêmicas. Digo de todo coração: jamais foi proposital ou decorrente de qualquer forma de preconceito. Tenho a certeza de que não estou sob o julgo de vocês, meus ex-alunos, e, por isso, antecipadamente agradeço.

Quanto aos que, mesmo sem me conhecer, ainda que por breves segundos, levantam o dedo julgador e me submetem a suas próprias condenações, exteriorizadas nos comentários assacados contra minha pessoa e fundamentados nas incertezas do episódio havido, invoco (em minha defesa) os testemunhos dos meus estimados ex-alunos, que facilmente podem ser encontrados nas mais de 170 turmas que me homenagearam e me festejaram nas conclusões dos seus cursos durante essa minha pacata existência terrena.

É vida que segue.

Meu fraterno abraço a todos.

O que diz o Unipê

O Centro Universitário de João Pessoa – Unipê, como Instituição de Ensino Superior, compreende que a educação é o melhor caminho para a formação de uma sociedade justa e igualitária.

Em 46 anos de história, formamos mais de 50 mil profissionais pautados em uma formação ética e humana, com compromisso com o bem-estar coletivo, sempre atentos às mudanças, avanços e conquistas sociais do mundo contemporâneo.

Entre os valores da Instituição está a busca pela justiça, verdade, igualdade de oportunidades e o respeito ao pluralismo e à diversidade nas suas mais variadas formas.

Em face disso, o Unipê informa que teve ciência, em 26/04/2017, por meio de sua Ouvidoria, do caso em que um docente supostamente teria agido de forma não condizente com os valores institucionais que o Unipê carrega consigo.

Como resultado dessa denúncia, o Unipê imediatamente iniciou uma análise interna, seguindo todos os trâmites necessários para questões dessa natureza, inclusive com respeito à ampla defesa por parte do docente, reiterando os valores de justiça e igualdade de oportunidades de nossa Instituição, na medida em que se trata de um professor decano, com 52 anos de cátedra e 80 anos de idade.

Por fim, o Unipê esclarece que o docente não se encontra mais no quadro ativo de funcionários da Instituição.

4 Comente Acusado e ‘aposentado’ no Unipê por suposta homofobia, professor se defende e pede desculpas

  1. Fabio Sobral Disse:

    O UNIPÊ foi covarde ao não enfrentar de frente essa matéria e dar muito “ouvido” às denúncias do aluno…já fomos alunos e sabemos que vivemos de impetuosidades e momentos!!! O professor citado, pode até ser uma pessoa idosa, passível de atualização, como ele próprio reconhece, mas do alto de seus 80 anos, era impossível não ter outra visão sob o prisma de quem assistiu a essa inversão de valores, e ainda assim se manteve ativo dentro do meio acadêmico privado, meio muito mais inóspito do que o público…

  2. Marcelo Disse:

    Fábio, sinto muito, mas idade não é desculpa para destilar preconceito.

  3. ANA Disse:

    O Enéas era homofóbico?

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