Jota Júnior, um comunicador de carisma inquestionável

(Foto: TV Arapuan)

• Por Valéria Sinésio

Faz tempo, mas eu lembro como se fosse hoje. Eu, ainda adolescente, na casa dos meus pais, liguei o rádio de manhã cedo e, entre as estações, uma voz me cativou. Assim, de imediato. Sem esforço. Era Jota Júnior. A partir daquele dia, liguei o rádio por anos seguidos, sempre no mesmo horário, para ouvir o que aquele comunicador de um carisma inquestionável falava.

Dentro de casa, era briga. Meus irmãos reclamavam quando eu ligava o rádio para ouvi-lo, atrapalhando, assim, o sono deles. Mas, apoiada pela minha mãe, que também se tornou ouvinte assídua de Jota, acabei vencendo, mesmo tendo que baixar o volume uma vez ou outra. A voz de Jota Júnior me desperta boas lembranças. Quando, por exemplo, eu ligava para a produção e pedia informação sobre qualquer coisa só para que eles me colocassem no ar e eu falasse com Jota. Eu não tinha mais que 15 anos.

Já perto de prestar vestibular para Comunicação Social, fui convencida por uma amiga para irmos conhecer aquele apresentador que era dono da audiência no horário da manhã. Eu, claro, topei, embora não soubesse o que falar. Chegamos à emissora e logo alguém nos levou a ele. Eu, tomada pela timidez, fiquei ali, sem jeito, enquanto Jota Júnior abria um daqueles sorrisos sinceros que se tornou característica marcante dele.

Conversa vai, conversa vem, eu digo, enfim, que quero ser jornalista e quem sabe um dia trabalhar com ele. Diante daquela confissão, eu vi um Jota Júnior entusiasmado em incentivar uma pessoa jovem a seguir e lutar pelos objetivos, mesmo sem me conhecer. Na hora de se despedir, na portaria, Jota me abraça, segura minha mão e diz: “Garota, não tenha medo dos seus sonhos!”.

“Não tenha medo dos seus sonhos”. Eu lembrei dessa frase de Jota quando fiz o vestibular, quando cheguei à Universidade Federal da Paraíba (UFPB), quando fiz meu primeiro programa de rádio na disciplina do mestre Carmélio Reynaldo. Em vários momentos da minha vida profissional eu lembrei daquele dia. Daquela frase. Daquele abraço. Outras visitas se sucederam àquela, e ele sempre gentil com os estudantes que iam até ele enchê-lo de perguntas – as quais ele respondia sempre pacientemente.

Enquanto muitos o criticavam e o acusavam de sensacionalismo, eu enxergava ali uma pessoa de verdade. Um ser humano verdadeiro. Com falhas e defeitos, como todos nós somos.

Anos mais tarde, recebi meu diploma. Bacharel em jornalismo pela UFPB. Aquele pedaço de papel nas mãos me fez, mais uma vez, lembrar das palavras de Jota: “Garota, não tenha medo dos seus sonhos!”. Não tive, Jota! Não tenho! Pena que não te reencontrei para dizer isso. Para falar a verdade, até reencontrei, em uma praça de alimentação, almoçando sozinho (há uns quatro anos), mas eu estava com tanta pressa que resolvi deixar para depois.

Para depois…a gente sempre com a mania de deixar para depois. Abraços, beijos, agradecimentos, perdão. Porque a gente sempre acha que vai ter tempo para fazer o que quiser. E talvez seja esse o maior ensinamento que a morte nos traz. O de que o tempo mais precioso é agora.

Ao amigo e grande comunicador que foi Jota, que Deus te receba de braços abertos…a gente fica aqui morrendo de saudade, mas entendendo que você tinha que partir. Que chegou a hora. Quanto ao seu legado, não se preocupe, esse não será, jamais, esquecido.

  • Valéria Sinésio é jornalista

3 Comente Jota Júnior, um comunicador de carisma inquestionável

  1. Benedito Fonseca Disse:

    A Paraíba perdeu uma grande pessoa! Parabéns Valéria Sinésio pelo texto.

  2. Andréa Batista Disse:

    Que recorte bacana da história de Jota, Valéria! Que Deus console a família dele!

  3. Isaías Teixeira Disse:

    Parabéns, Valéria Sinésio, pelo depoimento emocionante! Fiquei saboreando a recordação de quando você começou a escutar Jota no rádio, isso não é comum para uma adolescente. Talvez esse gosto pelo rádio fosse uma revelação de que o seu futuro seria o jornalismo.

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