Histórias inesperadas

Chico Xavier, em 1980 (Foto: Wikipédia)

Ele chegou, pediu licença para dividir a mesa do cafezinho e ocupou uma cadeira já puxando conversa. Daí pra frente, durante uma hora contou-me um pouco ou muito da sua vida. Vida sofrida, cheia de aperreios, provações e privações. Desde o início. Ainda bebê de colo, ficou órfão da maneira mais trágica e triste.

Seu pai foi assassinado logo depois de ter matado outro homem, aparentemente em legítima defesa. Coisa dos anos 50, por aí. Sua mãe foi obrigada a fugir da cidade. Faltou pouco para também ser eliminada na fúria da vingança pela morte que o marido causara.

A mulher deixou a criança aos cuidados de uma vizinha e partiu ligeiro. Foi se refugiar no interior do Rio Grande do Norte. Três anos mais tarde, a mãe adotiva viria a falecer, quando o menino mal começava a perceber sua própria existência.

Não foi fácil viver e crescer naquela cidade. Na escola ou na rua, vez por outra era identificado, apontado e hostilizado por ser filho “do assassino de”.

“Mas você só dá pra ruim se quiser, porque você tem escolha. Você escolhe entre o bem e o mal. Se tivesse reagido a tudo que diziam de mim, como se eu fosse um bandido, teria virado marginal. Mas fui balaieiro, trabalhei pesado num bocado de coisa, mesmo menino, mas nunca me desviei”, relembra.

Conseguiu, não sabe como até hoje, concluir o ginásio no lugar onde se sentia renegado. Daí por que foi uma enorme felicidade ver-se, enfim, na idade de servir ao Exército e poder ir embora dali.

Engajou-se, mas, bem antes do que gostaria, veio a reforma. Por conta de um acidente que lhe tirou as serventias para a vida militar. Não entra em detalhes. Só diz o seguinte: uma vez recuperado do desastre, resolveu conhecer outras terras e mundos. Nessas andanças, foi bater em Uberaba, Minas, onde conheceu Chico Xavier.

A partir daí, sua vida mudou. O contato com o médium lhe instaurou no íntimo a compulsão por ler e compreender a doutrina espírita, que lhe internalizou uma crença e o impeliu à irrecusável vontade de ser uma pessoa melhor.

Lendo Chico e outros expoentes do espiritismo, entendeu melhor o sentido da vida terrena; sobretudo, ressalta, aprendeu a lidar com o sofrimento. Graças a esse aprendizado, não permitiu que suas tristezas e decepções lhe alimentassem e aumentassem amarguras e revoltas no espírito.

O entendimento fez dele um homem feliz, garante, dizendo isso de um jeito tal que transparece sinceridade e convicção absolutas. Não tenho porque nem como duvidar do que ouço, mas ouso, enfim, fazer perguntas. Perguntas que ele responde a todas com a mesma placidez e bonomia com que iniciou o monólogo que já agora evoluía para uma conversa.

Sinto que devo ir devagar, para não constranger nem afugentar o cidadão que parece à vontade em me confiar a trajetória de uma jornada existencial que até aquele instante já me parecia material suficiente para uma boa história.

Mas, no ponto em que pressinto o fim da conversa, ele me relata mais um triste acontecimento: a perda da filha caçula, três ou quatro anos atrás. “Aneurisma na aorta”. Foi o que tirou a vida da moça, então com 17 anos e já na faculdade. Curso de Arquitetura, se ouvi direito.

Traz à mesa a informação que me deixa um tanto desconsertado, enquanto ele põe a mão dentro de uma bolsa tiracolo de onde arrasta um monte de fotografias. Mostra-me. Fotos dele com a família; entre as fotos, uma da menina que morreu precocemente. A garota muito bonita posa sorridente para a câmera. Está vestida com a camisa do time de futebol para o qual torcia. O time de coração do pai, claro.

Mas de tudo isso ele trata com a mesma serenidade com que inaugurou nosso contato. A morte da filha foi uma enorme provação, reconhece, mas nem tamanho padecimento desmanchou-lhe a convicção de que Deus a levou para um lugar melhor.

A menção a Deus muda o rumo da prosa. Inspira-se e verbaliza críticas contundentes aos neo-pentecostais. “Eles exploram o demônio, falam muito mais no demônio do que em Deus”, observa. Na sequência, narra episódios de atritos com pastores e padres que não lhe atenderam à curiosidade intelectual porque, quando questionados por ele, “jogaram tudo na conta dos mistérios de Deus”.

“Se tiverem humildade e adotarem o espiritismo, terão as respostas”, sugere, mesmo após qualificar com adjetivo nada religioso um expoente de uma daquelas igrejas.

Ele se levanta enfim, mas é para ir até o balcão, pagar o café com leite que tomara frio, pelo visto, considerando o tanto de tempo que demorou para tomar. Volta a sentar na mesma cadeira e me estende a mão.

Entendo o gesto como uma despedida e momento certo para lhe perguntar o nome e o que faz da vida, dados que me fornece entregando-me um cartãozinho de apresentação. Confiro os dados impressos e indago se posso contar a sua história.

Ele fita o teto do pavimento em que nos encontramos, em um shopping da cidade. Volta a me olhar nos olhos e responde que não. Teme ver-se exposto. Melhor preservar-se. Melhor preservar a família. Temores remanescentes da desgraça que deu cabo à vida de seu pai e à vida do homem que seu pai matou.

Entendo, claro, embora tenha cometido este escrito à revelia do protagonista. Contando com a compreensão do homem que antes de se levantar de vez da mesa do cafezinho me faz uma última revelação: há muito, desde que se viu adulto, cuida de manter uma relação mutuamente respeitosa e compreensiva com os descendentes da vítima do seu pai.

“Eu sei que eles sofreram muito com a perda deles, como sei que eles devem saber das minhas perdas e certamente compreendem que o meu sofrimento não foi menor. Afinal, além do pai, perdi minhas duas mães”, acentua.

Ele vai embora, finalmente, deixando-me conferir o relógio do computador para saber o quanto a conversa me encurtou o tempo para dar conta da tarefa a que me propunha quando ele pediu licença para dividir comigo sua história de vida.

Segundos após certificar-me do tempo, mudo o tema e começo a digitar um novo artigo para o jornal. Flui ligeira a narrativa dos sofrimentos de um homem que nas suas tristezas mais doloridas descobriu algo em que acreditar.

É uma bênção ter uma crença assim. Porque somente por aí, talvez, seja possível ao homem se encontrar no bem, na fraternidade, na solidariedade, na dimensão do certo, do correto, do justo, enfim.

  • (Adaptada de artigo publicado originalmente em 19.6.2011 no Jornal da Paraíba)

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  1. Nilton Cesar Disse:

    Muito bom o texto. Faz você pensar e repensar sobre a existência de sua vida aqui nesse mundo de provas e expiações.

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