Na última casa em Bananeiras, a mocinha da casa foge para casar

Rosane, Carlos e Tiago, os dois primeiros filhos, Fernando e Diego, o caçula

Rosane, Carlos e Tiago, os dois primeiros filhos, Fernando e Diego, o caçula (foto de álbum de família)

Até os setenta do século passado ainda era muito comum encontrarmos no interior de Paraíba e Nordeste pais que escolhiam ou no mínimo vetavam namorado de filha adolescente. Lá em casa, a regra evoluiu. Fixaram idade mínima. Minhas irmãs Rosane e Rejane poderiam namorar, mas somente a partir dos 15 anos. Namorar em casa, bem entendido, e sob vigilância.

Professor Vicente e Dona Aparecida só não contavam que Rosane, a filha de mais idade, apresentasse namorado exatamente no dia em que completaria 15 anos. E justo na festa de aniversário que encheu de parentes e amigos a casa da Praça do Colégio das Freiras, em Bananeiras. Entre os amigos, pelo menos meu e de Robson, o mano mais velho, compareceu Fernando, filho de Rubão Wanderley, agropecuarista e membro nato do clube dos homens mais brabos da região.

Contemporâneo de bancos escolares de Robinho, Fernando não tinha bem o perfil de namorado sonhado por meus pais para Rosane. Filho de dono de engenho, o que sinalizava posses acima da média local, divertia-se bem mais do que estudava. Era famoso e admirado na Grande Bananeiras por suas habilidades precoces de motorista e cavaleiro. Poderia ser hoje um astro aposentado de vaquejada, prática em que já se destacava aos 16 ou 17 anos, no final dos anos sessenta.

Pois bem, mas foi Fernando o escolhido por Rosane e Rosane, a escolha de Fernando. Os dois comunicaram o namoro a quem de direito no exato 25 de abril de 1971. Cumprindo a regra da casa, lógico, que valia apenas para as moças da casa, bem entendido. Mas, doravante, não puderam namorar à vontade. Ficavam os dois no terraço-alpendre, das sete às nove da noite, sem direito a hora extra. Pior: com o então Mago de Vicente e Aparecida, o maguinho aqui, segurando vela.

Evidente que namorar sob tais condições estimulava ‘roubo de filha alheia’, ação planejada e executada quase sempre com ajuda de amigos da mesma idade encarregados de prover transporte e cobertura para a fuga do casal. Operação consumada invariavelmente durante a madrugada, pois ladrão de moça agia com mais desenvoltura livre das possíveis testemunhas que nessas horas costumam estar dormindo em paz, sob o silêncio geral do lugar.

Com horário previamente combinado, a menina a ser roubada juntava duas ou três mudas de roupa numa mala, sacola ou mochila, saia furtivamente do seu quarto, ganhava rua e estrada. Para somente parar em alguma pousada ou hotelzinho de qualquer outra cidade distante da sua. De preferência, a uma distância segura, capaz de abortar qualquer chance de os pais da menina impedirem a consumação do roubo ou da primeira vez dos fujões.

Casa de onde Rosane e Fernando fugiram para casar

Casa onde Rosane e Fernando começaram a namorar e de onde fugiram para casar

Não deu outra na família Barbosa da Nóbrega. Rosane e Fernando seguiram fielmente plano e roteiro de fuga. Fugiram nas primeiras horas de uma madruga daquelas em que a temperatura desce aos 14 graus em Bananeiras. Foram localizados por volta de duas da tarde em uma pensão familiar no centro de Alagoa Grande. Localizados por meu pai e por Rubão Wanderley, que nos ajudou a resgatar os pombinhos. Participei da equipe de resgate.

Fui acordado e convocado para acompanhar a busca, naquela madrugada. Viajamos numa picape Willys que meu pai possuía na ocasião. Primeiro, fomos ao engenho de Rubão, onde o encontramos ordenhando uma vaca. Não pareceu surpreso e, diante da visível contrariedade do Professor Vicente, brincou. “Ora, Professor, feio seria eu ou o senhor fugir para casar, mas eles?”, disse. Evidente que meu pai só arrefeceu um pouco a raiva ao reencontrar a filha bem e um candidato a genro com todas as garantias e juras do mundo de que se casaria. Mesmo não tendo ‘bulido’ com a mocinha lá de casa, segundo afiançaram os dois na hora.

Dois ou três meses mais tarde, Fernando e Rosane casaram-se na capelinha do Colégio das Freiras, onde ela estudou primário e ginásio. Hoje, três filhos, cinco netos e 45 anos depois, entre aperreios e altercações naturais e previsíveis da vida a dois, os dois continuam. Casados e gostando um do outro, pelo que vejo.

Morando na Capital

Em João Pessoa, para onde viemos no final de 1971, moramos inicialmente no Conjunto Boa Vista, rebatizado nos oitenta como Bairro dos Ipês. Talvez porque a denominação anterior fosse uma espécie de capitis diminutio para os novos ricos que se mudaram para aquela área da zona leste da Capital.

Ainda referentemente à mudança de nome ou de status, de conjunto para bairro, desconfio que na versão original, com casas financiadas pelo velho BNH para operários e funcionários públicos de rendas baixa e média, muitos tinham o velho Boa Vista de guerra na conta de mera extensão de Mandacaru, bairro proletário estigmatizado desde a origem pela violência e esquecimento nas ações de governo para reverter quadro que perdura até hoje, em maior ou menor grau.

Saibam os condescendentes leitores dessas histórias de mudanças e moradias que por conta da mudança de vida e de cidade, na nova casa em que os Barbosa da Nóbrega passaram a residir deu-se meu primeiro contato com o preconceito de classe social. Fui o alvo – para não dizer vítima – desse preconceito. Mas, como diria o saudoso Vital do Rêgo, “lana caprina!”. De qualquer modo, essa eu tenho que contar, mas só no próximo sábado ou domingo.

6 Comente Na última casa em Bananeiras, a mocinha da casa foge para casar

  1. Ramalho Disse:

    Vc bate record de leitores quando muda de assunto kkkk Tenho acompanhado sua odisseia habitacional e a vida ao redor.Muito bom

  2. Egyto Disse:

    Muito bons os seus comentários, sobre está época.

  3. severinoelias@gmail.com Disse:

    Gostei, Rubens.

  4. romero antonio Disse:

    Beleza, Rubão! Conjunto Boa Vista isso aí…

  5. WOLHFAGON COSTA DE ARAUJO Disse:

    Bacana lembrar as coisa da vizinha Bananeiras, Rubens. A propósito, Fernando estudou comigo em Solânea. Grande Fernando.

  6. Leila melo Disse:

    Muito boa história. Gostaria de entrar em contato, pois faço parte de um grupo de pesquisa da UFPB, onde estaremos fazendo a história de alguns prédios antigos de Bananeiras, inclusive esse da foto. Desde já agradeço leilamelo2011@live.com

Comente

Não publicamos ofensas pessoais. O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *