Mudanças e moradias. De Bananeiras a João Pessoa

Casa do antigo Posto Agropecuário, hoje residência universitária do Campus da UFPB em Bananeiras

Casa do antigo Posto Agropecuário, hoje residência universitária do Campus da UFPB em Bananeiras

Se eu pudesse comprava todas as casas em que morei! Todas, todas mesmo. Mesmo aquelas em que sofri sozinho – ou junto com meus pais e irmãos – alguns momentos ruins. A exemplo do que aconteceu na casa grande do antigo Posto Agropecuário de Bananeiras, onde passei mais de um ano de minha infância entrevado, em cima de uma cama.

À época, começo dos sessenta, diagnósticos imprecisos atribuíam meu estado a ‘um foco de paralisia infantil’. Passou. É coisa datada e já contada em livro. Bem, depois da casa do Posto, compraria a de Caiçara, onde reaprendi a andar. Casa espaçosa e bem dividida aquela, com pé-direito alto e quase todo o teto na laje, contrastando com a maioria das residências daquele tempo, que usava forro de madeira para esconder o telhado nu com suas ripas, caibros e goteiras à mostra.

Dois anos em Caiçara e os Barbosa da Nóbrega voltariam para Bananeiras. Dessa vez, salvo alguma perfídia da memória traiçoeira, a volta deu-se em razão de meu pai ter sido nomeado Professor do Colégio Agrícola e contratado como avaliador do Banco do Brasil. Esse último emprego ele dava conta visitando e inspecionando propriedades rurais de pessoas que contraiam empréstimos na carteira de crédito agrícola do banco.

Acompanhava-o em algumas dessas inspeções, que consistiam em verificar se o candidato ao empréstimo tinha bens suficientes para cobrir a dívida em caso da não poder pagar ou, já tendo conseguido o que tomara, se estava aplicando direitinho o que lhe fora emprestado, seguindo o projeto ou a proposta apresentada ao gerente da agência de Bananeiras.

Bananeirenses outra vez, por assim dizer, passamos a ocupar uma casa na cidade propriamente dita. Ficava bem no começo da subida da Ladeira do Paravéi, que leva à Chã de Lindolfo, platô da serra mais alta do município. E bem próxima do largo da igreja-matriz. Pertencia à Paróquia de Nossa Senhora do Livramento.

Casa do Paravéi, onde fomos inquilinos da padroeira da cidade

Casa do Paravéi, onde fomos inquilinos da padroeira da cidade

Um quintal que era um sítio

Na minha recordação, muita coisa boa aconteceu enquanto fomos inquilinos da padroeira da cidade. Tirando a convivência meio tensa com o preposto da santa, o severo e mal-humorado Padre Diniz, o mais foi uma bênção morar naquela casa. Melhor de tudo, o quintal era um sítio enladeirado que terminava num baixio cacheado de árvores frondosas e frutíferas.

Nas chuvaradas, as depressões da parte baixa e plana do quintal formam piscinas onde a meninada – este menino incluído – tomava banho tibungando dentro. Com todos esses títulos e méritos, a casa da paróquia me fez esquecer as moradas de antes. Inclusive porque a casa do Paravéi funcionava em mim qual extensão do Posto Agropecuário.

Era como se o campo do velho Fomento Agrícola tivesse vindo na mudança, mesmo sem ter passado por Caiçara, que era terra de muito avelós e vegetação rasteira. Além do mais, na nova casa em Bananeiras, depois das aulas matinais e do almoço, danava-me a brincar no quintal de opções variadas para divertir criança.

De escalar pé de fruta a caçar passarinho e lagartixa, de baladeira… Deve ter sido a partir daí que começou a me acompanhar certa vocação pra estilingue.

  • (Sábado ou domingo que vem tem mais Mudanças e Moradias)

9 Comente Mudanças e moradias. De Bananeiras a João Pessoa

  1. Ramalho Disse:

    Adora quando voce muda de assunto kkk

  2. Flávio Lúcio Vieira Disse:

    Os textos memorialistas de Rubens Nóbrega são um retorno feliz ao passado, sem a tentação saudosista, muitas vezes tão comum em escritos do gênero, especialmente aqui na Paraíba. Essas visitas ao passado, que já lhe rendeu um livro, ao contrário de uma fuga para o passado, talvez sejam, ao contrário, uma maneira de fugir do presentismo duro, muitas vezes, cruel, do jornalismo.

  3. Rejane Nóbrega Disse:

    Que lindo mano!

  4. Charliton Machado Disse:

    Rubão, o artigo de hoje me faz também rememorar meu tempo de infância em minha outrora Cuité. A casa humilde e seus espaços de criatividades, brincadeiras. O é que no exercício de remememorar, até as nossas adversidades vividas são por demais ressignificadas, transformadas em beleza, poesia. Parabéns pelo lindo texto!

  5. Delano Vieira Disse:

    Belo texto seu Rubens, me fez pensar em quão bom era o tempo em que nós, que éramos as crianças, podíamos brincar na rua, tomar banho de chuva, dentre outras brincadeiras inerentes a época e quão diferente é hoje, em que a grande maioria de nós que hoje somos pais, temos medo de deixar nossos filhos sair a rua. Ô tempo bom que não volta mais.

  6. Marlene Alves Disse:

    Rubens, lendo seu precioso texto peguei um ” bigu ” direito para minha infância . Obrigada!

Comente

Não publicamos ofensas pessoais. O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *